terça-feira, 17 de junho de 2008

Yoga e Psicologia: porquê juntá-los

Praticar Yoga é uma forma de auto-conhecimento e de desenvolvimento pessoal. O Yoga pode representar uma forma de crescimento, um caminho de aprofundamento da nossa capacidade de espreitar para dentro de nós mesmos, numa busca constante e intensa da nossa verdadeira identidade.

Mais do que uma ginástica eficaz para nos mantermos em forma, para além de cuidar do corpo, o Yoga é uma forma de cuidarmos da mente, de a mantermos num estado de tranquilidade e bem-estar. Mas mais do que permitir a vivência de um estado de equilíbrio entre o corpo e a mente, o Yoga, é uma prática que, com o tempo, nos permite vivenciar estados cada vez mais subtis, profundos e, ao mesmo tempo, mais abrangentes. Estados que nos permitem mergulhar cada vez mais fundo numa viagem de descoberta de nós e do mundo.

Só muito recentemente a Psicologia se começou a preocupar com aquilo que nos faz felizes. Inicialmente, e até há pouco mais de uma década atrás, a Psicologia estudava prioritariamente a doença, preocupando-se em desenvolver teorias e intervenções que nos permitissem não só uma melhor compreensão de todo o processo de desenvolvimento da doença mental, mas também da melhor forma de intervir junto desta. Assim, toda a história da Psicologia se fez pela negativa. Pelo estudo dos fenómenos patológicos. Mas, recentemente, surgiu um novo ramo de estudo: a Psicologia Positiva. Esta ocupa-se sobretudo do estudo daquilo que nos faz felizes. Daquilo que nos faz crescer e ser melhores enquanto seres humanos. E também das ferramentas que permitem a algumas pessoas encontrar forças para serem felizes, mesmo em circunstâncias que seriam destrutivas para um outro indivíduo.

O Yoga pode ser estudado pela Psicologia Positiva como uma dessas ferramentas já que, através da sua prática, é possível de facto melhorar e fortalecer a nossa capacidade de sermos felizes. Praticando Yoga com regularidade descobrimos, como já várias investigações comprovaram, que é possível ser-se mais feliz, mais saudável e realizado.

As razões porque isto acontece levar-nos-iam a uma longa discussão e não são ainda consensuais entre os investigadores. Não só porque esta é uma área que tem ainda muito por explorar, mas também porque é bastante complexa e abrangente e a própria Psicologia é ainda uma ciência recente e cujos modelos de desenvolvimento não conseguem ainda (provavelmente não conseguirão tão cedo) explicar toda a complexidade daquilo que representa ser-se humano.

Mas se a ligação do Yoga à Psicologia Positiva se faz desta forma, salientando o seu vasto potencial como método de desenvolvimento humano, também é fácil fazer a ligação à Psicologia Terapêutica, salientando o potencial que muitas das suas técnicas têm para o tratamento de várias perturbações psicológicas e não só.

Na Índia, país de origem do Yoga, este sempre foi visto como uma ferramenta de desenvolvimento espiritual mas também como um método terapêutico por excelência.

Ao nível psicológico o Yoga tem tido efeitos comprovados principalmente ao nível das perturbações da ansiedade e da depressão, mas o seu potencial, a grande variedade das suas técnicas e a forma como se direccionam os seus efeitos para o corpo e para a mente de uma forma holística e integrada, permitem-nos afirmar que terá, sem dúvida, como também o comprova o trabalho de muitos Yogaterapeutas (principalmente na Ìndia e nos E.U.A.) que terá benefícios também para outras perturbações.

Para além destes aspectos a prática de Yoga pode ainda também enquadrar-se no campo de estudo da Psicologia Transpessoal, já que, de facto, o yoga nos permite entrar em contacto com o que existe para lá da persona - palavra que, em grego, significa máscara, que designava a personagem que os actores gregos interpretavam em palco e que está na origem do termo personalidade. Assim, o Yoga, do ponto de vista da Psicologia Transpessoal, pode também ser enquadrado como um método de auto-transcendência, de evolução para além do ego e dos estados comuns da vigília.

Yogaterapia

A yogaterapia é uma terapia alternativa que tem ainda pouca expressão em Portugal mas que, em países como os E.U.A. Inglaterra ou Índia, tem conhecido um grande desenvolvimento. Este traduz-se quer pelo reconhecimento do público, quer pelo número cada vez maior de profissionais envolvidos em pesquisas que comprovam os efeitos benéficos desta no tratamento de vários problemas de saúde.

Esta é uma terapia onde se aplicam técnicas do yoga com a finalidade de tratar ou de complementar o tratamento de várias condições. As que têm sido mais estudadas e que, geralmente, respondem melhor à yogaterapia incluem problemas respiratórios (como asma, bronquite, enfisemas pulmonares), dores de costas, hipertensão arterial, todas as perturbações relacionadas com a ansiedade e depressão.

Em países como Inglaterra, por exemplo, a yogaterapia chega mesmo a ser aplicada com resultados positivos nos estágios iniciais de doenças graves como o cancro ou a doença de Parkinson.

As técnicas mais vulgarmente usadas em yogaterapia são: o asana – posições que influenciam directamente os órgãos, as glândulas e o sistema nervoso, mas que podem ter também uma importante influência sobre os estados mentais; o pranayama- exercícios respiratórios, que exercem uma influência ao nível do sistema nervoso e das emoções, e o relaxamento e a meditação, que têm um papel importante no combate ao stress e à ansiedade e que podem também ajudar a criar estados de espírito mais optimistas e propícios à cura.

Um dos aspectos que distingue a yogaterapia de outras terapias mais convencionais e que a torna um meio adequado para o tratamento tanto de perturbações físicas como mentais, é a visão holística que tem do ser humano. A palavra Yoga, do sânscrito, significa literalmente unir, e a prática do yoga é muitas vezes encarada como uma forma de unir a mente ao corpo. Em yogaterapia, temos noção que não podemos tratar só o corpo ou a mente da pessoa. Ao tratar, por exemplo, uma dor de costas, poderemos usar vários asanas que ajudem a aliviar a dor e até mesmo a corrigir as suas causas, mas não podemos ignorar os factores psicológicos que a dor terá com certeza influenciado ou que, muitas vezes, podem mesmo tê-la causado.

Hoje em dia há cada vez mais certezas em relação à forma como a mente influencia o corpo e vice-versa. Sabe-se que a esperança que a pessoa tem de se curar e a capacidade que tem de direccionar todos os seus recursos internos para essa cura são essenciais para o bom andamento do processo terapêutico. Mesmo quando usamos fármacos, há já muitos estudos que nos dizem que estes não têm tanto efeito se a pessoa não acredita neles ou no médico que os receitou; outros estudos mostram ainda que tomar um comprimido formulado para curar determinada perturbação, por vezes, pode ter exactamente o mesmo efeito, do que tomar um placebo em que a pessoa acredita.

Há, hoje dia, cada vez mais pessoas que procuram o yoga como forma de tratar alguns problemas de saúde. Mas, se é verdade que os benefícios desta prática podem ser colhidos pela prática regular em aulas de grupo, também é verdade que esta nem sempre é acessível às pessoas que sofrem de problemas mais marcados de saúde; embora os praticantes de yoga, ao contrário do que muitas vezes se crê, não tenham que ser pessoas flexíveis e ágeis e, apesar de muitas vezes os exercícios mais eficazes no yoga serem justamente os mais simples e não os mais espectaculares e impressionantes que tantas vezes são divulgados. Ainda assim, para pessoas com uma saúde muito débil, ou com vários problemas em simultâneo, por vezes as técnicas têm que ser bastante adaptadas e este é um trabalho que nem sempre é possível fazer dentro de uma aula de grupo, apesar de nestas também ser muito importante ter em conta que a prática deve ser sempre adaptada ao indivíduo e nunca o indivíduo à prática.

Temos também consciência de que todos somos diferentes e que, por isso, o que faz bem a algumas pessoas não será necessariamente o melhor para outras. Por isso, em yogaterapia, todo o trabalho é feito individualmente (ou em grupos muito pequenos em que todos os participantes apresentem um problema de saúde comum) de forma a que as sessões sejam personalizadas e direccionadas para a resolução de uma problemática específica, usando as técnicas que forem mais relevantes para cada caso e para cada pessoa.

Outro aspecto que importante da yogaterapia, é a responsabilização da pessoa pelo seu próprio processo de cura. Por isso é importante que a pessoa perceba correctamente os exercícios que são feitos em cada sessão, bem como a sua utilidade, para que possa em casa, diariamente, pô-los em prática. Esta prática regular (ainda que possa não ocupar mais de 10, 15 minutos por dia) é essencial para que se obtenham todos os benefícios terapêuticos, mas tem também o mérito de devolver à pessoa a capacidade de aprender a estar bem e a segurança de saber que tem ao seu dispôr um conjunto de exercícios que poderão devolver-lhe qualidade de vida e contribuir para uma existência mais saudável e preenchida por momentos de bem-estar.


Laura Sanches e Jorge Ferreira