Estes são os vídeos da palestra apresentada em Fevereiro, no Lisbon Yoga Festival, sobre Seitas no Mundo do Yoga. Um reflexão sobre o que nos leva a entrar neste tipo de escola, sobre as suas principais características e os prejuízos que podem causar.
Primeira parte da Palestra
Segunda parte da Palestra
E aqui fica também um link para os slides que foram sendo apresentados ao longo da palestra e que não foi possível enquadrar bem na filmagem.
Slides da Palestra
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
Abraçar os nossos Limites
Nas minhas
aulas de Yoga digo muitas vezes aos alunos para estarem atentos aos sinais
do seu corpo e respeitarem os seus limites e, há dias, tomei consciência de que
esta referência aos limites é, quase sempre, encarada de uma forma negativa na
maior parte dos contextos. Não gostamos muito que nos lembrem que temos limites
e, muitas vezes nas aulas de Yoga, é incentivada a ideia de que podemos sempre
ultrapassar os nossos limites levando o corpo a fazer coisas que nunca
imaginámos serem possíveis. É verdade que à medida que vamos praticando com
regularidade vamos ficando mais em forma e - partindo do princípio que temos
uma prática equilibrada - vamos ganhando mais flexibilidade e força que nos
permitem ir mais longe do que quando começámos. Mas também é verdade que, por
muito que fiquemos em forma, existem sempre limites que nunca poderemos
ultrapassar. Paul Grilley chama a atenção para o facto de existirem no nosso
corpo os chamados pontos de compressão que nos impedem de fazer certas posições
por mais que nos esforçemos. Estes pontos de compressão são diferentes para
todas as pessoas, para ter uma ideia do que estes implicam, pode experimentar
pôr-se na posição de cocóras com os pés unidos e verificar se consegue colocar
toda a planta do pé no chão ou apenas a parte da frente. São justamente os
pontos de compressão - da articulação do tornozelo, neste caso – que permitem
ou impedem o pé de ficar totalmente em contacto com o chão. Nesta posição o
facto de sermos capazes de colocar a planta do pé totalmente no chão, não
depende tanto da flexibilidade como dos tais pontos de compressão que são zonas
onde os ossos da articulação se tocam impedindo que haja uma maior amplitude de
movimentos. Isto quer dizer que até podemos melhorar um pouco a flexibilidade dos músculos envolvidos na posição, mas nunca passaremos dos limites que nos são permitidos pelos nossos pontos de compressão. No ballet, por exemplo, quando as crianças começam a dançar os professores, ao fim de pouco tempo, são capazes de distinguir aquelas que podem continuar e investir num percurso profissional daquelas que têm um tipo de corpo que nunca lhes permitirá ser bailarinos profissionais. Uma criança que faça ballet a sério há algum tempo e que não consiga fazer a espargata, por exemplo, é posta de parte porque se sabe que, por muito que trabalhe, nunca virá a ser capaz de a fazer.
movimentos. Isto quer dizer que até podemos melhorar um pouco a flexibilidade dos músculos envolvidos na posição, mas nunca passaremos dos limites que nos são permitidos pelos nossos pontos de compressão. No ballet, por exemplo, quando as crianças começam a dançar os professores, ao fim de pouco tempo, são capazes de distinguir aquelas que podem continuar e investir num percurso profissional daquelas que têm um tipo de corpo que nunca lhes permitirá ser bailarinos profissionais. Uma criança que faça ballet a sério há algum tempo e que não consiga fazer a espargata, por exemplo, é posta de parte porque se sabe que, por muito que trabalhe, nunca virá a ser capaz de a fazer.
Para além
destes pontos de compressão, existem outros limites naturais para o nosso corpo
em função do tipo de vida que levamos, da idade, da saúde, do género, etc.
Então porque é
que temos tanta dificuldade em aceitar que o nosso corpo tem limites? E porque
é que estes têm tendência para ser vistos como algo de negativo?
E, do ponto de
vista da saúde psicológica, é importante também sermos capazes de aprender a
deixar de lado as metas, os objectivos que estamos tão habituados a impor a
nós mesmos no dia-a-dia. É importante sermos capazes de deixar fora da sala a
atitude de ginásio, de quem quer ir sempre mais longe, de quem quer fazer
melhor porque, se procuramos o Yoga como uma prática que nos ajude a crescer, a
ser mais felizes e a relaxar verdadeiramente então é fundamental que a usemos
para aprender a aceitar: a aceitar o nosso corpo tal como ele é, não como
gostaríamos que fosse. Aceitar os nossos limites e abraçá-los como algo de
precioso que nos pode ensinar a estar presentes de outro modo, que nos pode
ensinar a conhecermo-nos de forma mais profunda e completa. E abraçar os nossos
limites como uma parte integrante de quem somos e de onde estamos,
agradecendo-lhes por essa informação preciosa que nos dão se estivermos
dispostos a ouvi-la. Só através dessa aceitação é que um dia poderemos
verdadeiramente transcender os nossos limites, não de um ponto de vista físico
(porque o nosso corpo estará para sempre sujeito às leis da física) mas de
um ponto de vista mental ou espiritual que é o que verdadeiramente conta.
Laura Sanches
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
Mindfulness e Ansiedade - Viver com Atenção Plena as nossas dores
Há muito tempo
que a meditação tem sido reconhecida pela ciência como uma prática com um
efeito importante e eficaz para baixar e
controlar os níveis de ansiedade e para contrabalançar os efeitos
negativos do stress nas nossas vidas. Existem vários tipos de práticas de
meditação diferentes, em várias tradições diferentes pelo mundo fora mas, desde
há algum tempo que as investigações científicas se têm concentrado
principalmente num tipo específico de meditação, a meditação do tipo
Mindfulness, ou meditação da Atenção Plena, em português.
Esta prática
tem as suas raízes na tradição budista e um dos primeiros responsáveis pela
introdução do termo no ocidente foi Tich Nhat Hanh, um monge vietnamita, de
quem Kabat-Zinn foi aluno. Na tradição budista esta é uma prática considerada
essencial para a libertação do sofrimento que, na verdade, é a meta de todas as
tradições espirituais.
A psicologia budista ensina-nos que podemos distinguir a
dor do sofrimento: a dor é o evento primário, é o algo que acontece, que faz
parte da vida e que é inevitável: enquanto tivermos um corpo podemos sempre
magoar-nos, ficar doentes, envelhecer, etc; o sofrimento é uma camada extra que
acrescentamos às nossas dores e que pode ser evitado se aprendermos como
fazê-lo. Para percebermos melhor isto pensemos no
seguinte exemplo: estamos na nossa cama e acordamos a meio da noite com vontade
de ir à casa de banho, saimos da cama, ainda ensonados, e seguimos pela casa
fora em direccção à dita cuja. A meio do caminho batemos com o dedo do pé na
esquina de uma mesa e sentimos aquela dor forte que não podemos evitar porque o
dedo ficou mesmo magoado. Este é o evento primário, a tal dor que já está presente,
que existe e que não pode ser evitada. A seguir o que acontece, de forma
automática, é que gera a tal segunda camada, a camada de sofrimento, que pode ser
voltada para dentro quando pensamos “porque
raio é que não acendi a luz?! Porque é que não calcei o raio das chinelas?!”
ou pode ser voltada para fora quando começamos a culpar os outros pelo que
aconteceu com pensamentos do género “Quem é
que tirou esta mesa do sítio?! Porque é que o meu marido tinha de comprar esta
mesa que eu nunca quis aqui e está-se mesmo a ver que só estorva?!” Quando
surgem este tipo de pensamentos o que estamos a fazer é a alimentar o nosso
sofrimento à volta daquela dor e a torná-la ainda mais intensa. Estes pensamos
criam uma tensão à volta daquela dor porque estamos a tentar evitá-la, são
pensamos que reforçam uma atitude que nos diz que não gostamos daquela sensação
e que queremos evitá-la, eliminá-la o mais depressa possível. Acontece que a
dor é um sinal natural do nosso corpo que tem um propósito importante. A dor
serve para nos avisar de que qualquer coisa está a acontecer no nosso corpo e
precisamos de lhe dar atenção. Neste caso sabemos o que aconteceu, batemos com
o dedo na perna da mesa, mas mesmo assim este mecanismo tem um propósito
importante: se o dedo estiver partido, por exemplo, a dor torna-se ainda mais
intensa para nos impedir de andar, protegendo-nos de um dano ainda maior que
poderia acontecer se a ignorássemos e fizéssemos algum tipo de esforço. Então,
como estamos a tentar ignorar aquela mensagem do corpo, ele não em outro remédio
se não tentar torná-la ainda mais intensa. Por outro lado, este tipo de
pensamentos também criam alguma tensão. Se tomarmos consciência da forma como
os proferimos, mesmo em silêncio, podemos facilmente verificar que há uma tendência
para contrair os maximlares, os ombros, para cerrar os punhos, sinais de tensão
corporal. E, essa tensão, por sua vez, também acaba por contribuir ainda mais
para o mal-estar que a dor inicial já provocou.
Com o
mindfulness aprendemos que podemos observar simplesmente aquela dor, podemos
deixar que esteja presente naquele instante, podemos aceitá-la como uma parte
integrante da nossa experiência no momento presente. Com o mindfulness
percebemos que é natural que esses pensamentos automáticos surjam mas que não
precisamos de os alimentar e percebemos que, quando deixamos de lutar com as
nossas dores, eliminamos o sofrimento que estamos habituados a criar à volta
delas.
Por isso
existem muitos estudos que mostram que o Mindfulness é muito eficaz para lidar
com os casos de dor crónica, com investigações que demonstram que esta prática
pode baixar os níveis de dor ao mesmo tempo que também ensina uma melhor forma
de lidar com a dor que ainda resta.
Isto também é
válido para as dores da mente, as dores mais emocionais que, na verdade, de um
ponto de vista psicofisiológico são tão reais como as físicas. Os nossos
pensamentos e as nossas emoções, ou a forma como lidamos com estes, por vezes
também nos causam um sofrimento tão intenso como as pancadas ou as quedas que
vamos dando pela vida. O sofrimento psicológico vem, quase sempre, dos
pensamentos ou emoções que tentamos evitar. Ao longo da nossa vida vamos
aprendendo que há certas emoções que são avaliadas, por nós, como sendo
desagradáveis ou insuportáveis e vamos acreditando que a única forma de lidar
com elas passar por tentarmos eliminá-las ou ignorá-las o mais possível. Mas,
na verdade esta luta, além de provocar ainda mais tensão, sofrimento e um
enorme desgaste, só acaba por fortalecer ainda mais estes pensamentos e estas
emoções.
Para comprovar
isto pode experimentar fazer o seguinte exercício: páre de ler este artigo e, durante
os próximos três minutos, tente não pensar num urso branco, pode usar as
estratégias que quiser, a única tarefa dos próximos três minutos é não pensar
num urso branco.
Este
investigador fazia experiências em que o tempo era dividido em duas metades e
criou dois grupos diferentes em que os procedimentos na primeira metade da
experiência eram diferentes: a um dos grupos era pedido que não pensassem num
grupo branco e ao outro grupo pedia-se justamente o oposto, que pensassem num
grupo branco durante 5 minutos. Durante esse tempo pedia-se às pessoas dos dois
grupos que fossem verbalizando os seus pensamentos e que tocassem uma campainha
sempre que surgisse um pensamento do urso. Na segunda parte da experiência era
pedido aos participantes dos dois grupos que pensassem num urso branco e
continuassem a tocar a campainha sempre que o fizessem. O que se verificou foi
que as pessoas do primeiro grupo, a quem era pedido que suprimissem os
pensamentos acerca do urso branco eram sempre aquelas que, na segunda parte,
tocavam mais vezes a campainha. Jonathan Haidt explica que podemos dividir os
nossos pensamentos em pensamentos automáticos e pensamentos controlados. Quando
estamos aprender a tocar um instrumento, por exemplo, ou a conduzir, precisamos
de usar os pensamentos controlados que vão guiando as nossas acções e que, de
tempos a tempos, precisam de confirmar se estão a fazer o que é certo. Ou seja,
quando estamos a aprender uma determinada tarefa sabemos qual é o desempenho a
que queremos chegar e, por isso, com alguma regularidade os nossos processos de
pensamento vão comparando o nosso desempenho com esse ideal para fazer os
ajustes que forem necessários. Quando já dominamos essa tarefa a comparação
deixa de ser necessária e por isso esta pode passar a ser orientada pelos
processos de pensamento automáticos que já não nos exigem estar tão atentos ao
que estamos a fazer. Então, Haidt (2007) explica que, o que se passa quando
estamos a tentar suprimir um pensamento é que estamos a estabelecer um
objectivo, logo precisamos de usar os pensamentos controlados para saber se
estamos ou não a aproximar-nos desse objectivo.
Neste caso, como sempre que se persegue um
objectivo, uma parte da mente automaticamente vai monitorizando o nosso progresso
para sabermos se já o atingimos ou se nos estamos a aproximar desse objectivo.
Diz Haidt que, se esse objectivo for uma acção no mundo exterior, como aprender
um instrumento, por exemplo, isto funciona bem. Mas, o acto de monitorizarmos a
ausência de um pensamento introduz esse mesmo pensamento: temos que nos
perguntar “já não estou a pensar num urso
branco?” com alguma regularidade, para saber se de facto não estamos a
pensar num urso branco. Então temos que introduzir regularmente este pensamento
na tentativa de o afastarmos. Jonathan Haidt (2007) explica ainda que os
processos de pensamento controlados são mais cansativos que os processos de
pensamento automáticos. Quando estamos a aprender um instrumento, na fase
inicial, ficamos muito mais cansados do que quando já temos algum domínio sobre
este, o mesmo se passa quando estamos a aprender a conduzir, por exemplo: esta
monitorização constante que faz parte do próprio processo de aprendizagem acaba
por se tornar cansativa. Mas, acontece que os processos automáticos são
praticamente inesgotáveis então, rapidamente, quando estamos a tentar suprimir
um pensamento estes acabam por tomar conta e é como se desatassem de repente a produzir
milhares de ursos brancos. Segundo este autor e de acordo com os estudos de
Wegner é assim que se geram as obsessões. Os nossos processos automáticos de
pensamento geram milhares de pensamentos todos os dias, Haidt defende que
aqueles pensamentos de que não nos conseguimos livrar são justamente aqueles
que mais tentamos eliminar: quando lutamos com um determinado pensamento, na
verdade, acabamos apenas por torná-lo mais forte e cada vez mais presente na
nossa mente.
Wegner explica que suprimir
pensamentos implica um estado de saber e de não saber ao mesmo tempo,
justamente, porque temos que pensar constantemente naquilo em que estamos a
tentar não pensar.
Esta
é base para todas as perturbações da ansiedade e também para a as ruminações
características da depressão e é este mecanismo que o mindfulness nos pode
ensinar a evitar eliminando todo o sofrimento que lhe está associado. Na
verdade a nossa capacidade de suprimir pensamos pode funcionar em situações sem
tensão com pensamentos que não sejam importantes, por exemplo, se estou
descontraída no cinema a ver um filme e me passa pela cabeça que não sei o que
hei-de fazer para o almoço do dia seguinte, posso facilmente afastar esse
pensamento porque não implica nada de muito importante. Mas se estou presa no
trânsito, atrasada para chegar a casa, onde ainda vou ter que cozinhar um
jantar importante para alguém do trabalho, por exemplo, com quem faço muitas
cerimónias e ainda nem sei bem o que hei-de cozinhar, será bem mais dificil
tentar não pensar no assunto.
E, tal como a dor do nosso corpo quando este se magoa tem um papel importante e precioso que não deve ser ignorado, as dores emocionais também nos trazem informações importantes que não devemos descuidar. A ansiedade tem um valor adaptativo porque nos ajuda a prever o que pode correr mal e nos ajudar a estar mais preparados. A zanga tem também um valor importante porque nos mostra que alguma necessidade nossa não foi satisfeita ou respeitada. A tristeza também é importante porque nos diz que ocorreu uma perda, que estamos vulneráveis. Se não aprendermos a escutar estas mensagens o nosso corpo acabará por ser obrigado a dar-nos outras mais fortes que, muitas vezes surgem na forma de doenças que podem ser mais ou menos graves.
Com
o mindfulness aprendemos a ser mais capazes de respeitar as informações preciosas e importantes que essas dores nos podem trazer. E aprendemos também que não precisamos de entrar em luta com os nossos
pensamentos ou com as nossas emoções, aprendemos que podemos simplesmente
aceitá-los e deixar que estejam presentes sem termos que nos deixar levar pelo
diálogo da nossa mente que nos diz que são pensamentos ou emoçõe perigosas ou
negativas e que não deviam estar presentes. Assim, percebemos que não
precisamos de criar uma nova camada de sofrimento à volta de cada um das nossas
dores e isto deixa-nos muito mais livres para encontrarmos formas mais
criativas de lidar com a dor ou, quando não há mesmo nada a fazer, para
simplesmente deixarmos que passem, no seu tempo, sem nenhum sofrimento extra
adicionado.
O mindfulness, ao ajudar-nos a aceitar as nossas emoções e pensamentos ensina-nos também algo ainda mais importante: aceitarmos-nos a nós mesmos. Com o treino de mindfulness percebemos que não precisamos de passar a vida a lutar com os pensamentos, com as emoções e com quem somos, percebemos que as nossas emoções e os nossos pensamentos estão certos tal como estão. E, com esta base de aceitação que podemos ganhar coragem para mudar realmente aquilo que precisa de ser mudado na nossa vida. É com esta aceitação que percebemos que temos o direito de ser quem somos mas que também temos o direito de mudar e de encontrar formas mais criativas de viver a nossa vida sem termos que nos tornar escravos da ansiedade, dos medos, da tristeza ou das preocupações. O mindfulness dá-nos a liberdade de sabermos que, sejam quais forem as circunstâncias da nossa vida, somos livres para responder mais do que simplesmente reagir ao que acontece.
Laura Sanches
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Fazer Asana escutando o Corpo
O mindfulness é um treino da
atenção que nos ensina a observar sem julgar. Este treino permite-nos por de
parte os comentários, avaliações, julgamentos e análises que a nossa mente faz
constantemente e observar a realidade e a nossa experiência tal como elas são. Isto
permite-nos entrar muito mais em contacto com o nosso corpo e com as nossas
sensações o que, por sua vez, nos permite estar muito mais conscientes das
mensagens que este transmite. Acontece que, no nosso percurso de crescimento
muitas vezes aprendemos a desligar-nos do corpo. Quando educamos as crianças,
muitas vezes, acabamos por lhes transmitir que há determinadas emoções que não
são aceitáveis e isso faz com a que a criança passe a negar determinadas partes
de si. As emoções sentem-se no corpo, por isso, a única forma da criança deixar
de sentir determinadas emoções será passando a ignorar as sensações que estas
despertam no corpo.
Outras vezes também acontece que,
enquanto crianças, passamos por situações que podem ser demasiado difíceis de
assimilar e, por isso, a única forma de lidar com elas será tentando ignorar, de
algum modo, as sensações que estas despertam em nós. Deste modo, com o passar
dos anos, vamos crescendo e aprendendo a desligar-nos um pouco do corpo. A
educação dos nossos dias ajuda ainda mais a efectivar esse desligar na medida
em que todas as capacidades intelectuais são muito mais valorizadas,
estimuladas e reconhecidas do que a capacidade de estar em contacto com as próprias
emoções ou com o próprio corpo.
Com o passar dos anos este
desligar cria uma sensação de insatisfação, uma espécie de vazio que não sabemos
muito bem como preecher. Porque afastamento do corpo, ao afastar-nos das emoções
negativas, também nos impede de saborear verdadeiramente as positivas e então
vamos passando pela vida sem saber muito bem como apreciá-la em pleno. A
incapacidade de nos ligarmos ao corpo e às emoções também nos impede de fazer
verdadeiras escolhas porque para escolher precisamos de escutar as emoções. As escolhas
mais importantes são sempre feitas com base nas emoções. Na verdade há estudos
que mostram que, em todas as nossas escolhas – mesmo aquelas que pensamos serem
mais racionais – são feitas pelas emoções, o racional aparece depois para justificar uma escolha que já foi feita. Estes estudos usam imagens que são
projectadas de uma forma tão rápida que a pessoa não tem tempo de,
conscientemente, as assimilar. O que se verifica é que, mesmo que a pessoa não
chegue a ter tempo de assimilar essas imagens conscientemente, elas continuam a
influenciar as decisões que a pessoa toma a seguir. Jonathan Haidt, psicólogo americano e investigador no campo da psicologia moral, explica que as emoções aparecem sempre primeiro e estão por trás de todas as nossas escolhas o que fazemos é, depois, arranjar argumentos racionais que ajudem a explicar essas escolhas.
Por outro lado, também acontece que, as pessoas que têm mais dificuldade em estar em contacto com as suas emoções acabam por ter também muita dificuldade em fazer escolhas, por vezes, até das coisas mais simples.
Por outro lado, também acontece que, as pessoas que têm mais dificuldade em estar em contacto com as suas emoções acabam por ter também muita dificuldade em fazer escolhas, por vezes, até das coisas mais simples.
Gabor Maté, um médico canadiaano,
no seu livro “When the body says No” desenvolve a tese de que este desligar do
corpo e das emoções, quando é muito acentuado, acaba por fazer com que se
desenvolvam doenças que podem chegar a ser mesmo graves, como o cancro, por
exemplo. O que este autor diz é que o corpo fala constantemente connosco, por
meio das sensações que transmite, e quando não escutamos as suas mensagens ele
precisa de enviar algumas que sejam mais fortes e então surge a doença. Se passámos
muito tempo a ignorar as mensagens do nosso corpo é mais provável que essas
mensagens se tornem mais urgentes daí que as doenças que acabamos por
desenvolver são formas do corpo se fazer escutar e de nos obrigar a parar. Na verdade,
as pessoas que conseguem ultrapassar com mais sucesso essas doenças, são
justamente aquelas que param mesmo para pensar na vida e que ganham coragem
para fazer as mudanças necessárias quando são confrontadas com o seu diagnóstico.
Aquelas que querem continuar como se nada fosse e preferem continuar a pensar
que está tudo bem – e que, muitas vezes são encaradas como as que estão a lidar
melhor com a doença - mostram as estatísticas que são justamente aquelas
que têm mais recaídas e menores probabilidades de sobrevivência. Justamente porque
se recusam a ouvir o corpo e as suas mensagens.
Então, podemos usar a nossa prática
de mindfulness yoga para aprender a ouvir mais o nosso corpo, para estarmos
mais receptivos e em sintonia com as mensagens que ele nos transmite. Uma das
ferramentas que podemos usar para o fazer é a nossa prática de asana. Quando fazemos
asana (as posturas do yoga), especialmente aqueles que são mais difíceis para nós,
o corpo dá-nos uma série de mensagens: podemos sentir os músculos a alongar ou
a serem fortalecidos, podemos tomar consciência dos músculos que não estão a
ser usados e que podem permanecer totalmente relaxados, podemos aperceber-nos
das tensões desnecessárias que estamos a criar, etc. Mas acontece que, no meio
destas mensagens do corpo, surgem também os pensamentos, as avaliações e os
julgamentos: a nossa mente começa a tecer vários comentários e julgamentos
sobre aquelas sensações dizendo-nos que não somos capazes de as aguentar, ou
que algo de mau vai acontecer se insistirmos, ou que não temos força suficiente,
ou que não somos flexíveis, ou que aquilo é muito difícil para nós,etc. E, a
maioria das vezes, são estas mensagens que nos levam a desfazer um asana, mais
do que uma verdadeira necessidade do nosso corpo. Então, é um exercício
importante de auto-conhecimento aprendermos a ser capazes de distinguir as
mensagens da nossa cabeça, os comentários constantes, das verdadeiras mensagens
do nosso corpo. Quando fazemos um asana podemos ter a intenção de escutar
verdadeiramente o corpo e só sair desse asana quando for o corpo a dizer-nos
que já obteve tudo o que precisa de obter daquele exercício.
Se conseguirmos fazê-lo, o que
nem sempre é fácil, damos mais um passo para criar uma verdadeira intimidade e
aceitação com o corpo e connosco mesmos.
Outras vezes também pode
acontecer o contrário: o corpo está cansado da posição, mas a cabeça diz que é
preciso aguentar porque temos que nos esforçar, porque queremos melhorar ou
porque ainda ninguém desfez, ou porque achamos que precisamos de ir mais longe
na posição e, quando isto acontece, é muito fácil magoarmos-nos. Principalmente
se o fazemos repetidamente, aí podemos mesmo criar lesões crónicas ou até com
alguma gravidade. Nestes casos o exercício de ouvir o nosso corpo e reconhecer
as suas mensagens é também um exercício de aceitação: aceitação dos nossos
limites e aceitação da realidade, do nosso corpo, tal como ele é e não como
gostaríamos que fosse. Esta também é uma aprendizagem essencial porque muitas
vezes passamos uma boa parte da vida a lutar connosco mesmos, a achar que
precisamos de ser diferentes e, só quando largarmos essa luta é que teremos
verdadeiramente espaço para crescer, para sermos felizes e para levarmos uma
vida mais saudável e equilibrada em todos os sentidos.
Laura Sanches
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Efeitos do Mindfulness – Como viver com Atenção Plena pode transformar a nossa relação connosco e com o mundo
Hoje em dia já
existem centenas de estudos que comprovam os efeitos benéficos da meditação.
Uma vasta parte desses estudos que, hoje em dia, são produzidos são
influenciados pelo trabalho pioneiro de Kabat-Zinn, um médico dos E.U.A que
trouxe o mindfulnes, da tradição Budista, para um contexto mais terapêutico,
científico e despido de conotações religiosas. O Mindfulness pode ser definido
como um estado em que se presta atenção, de forma intencional, ao momento
presente, sem julgamentos. Este é um estado de atenção que pode ser aplicado a
qualquer situação da nossa vida diária mas que é mais facilmente aprendido e
treinado num contexto de meditação formal.
Várias
correntes da psicologia – como a Psicologia Positiva ou a Psicologia Cognitiva
– já se interessaram pela utilidade do mindfulness como forma de promover a
saúde mental e surgiram já vários programas, com base nesta prática, que se
destinam a combater perturbações específicas específicas como a depressão
(Mindfulness-Based Cognitive Therapy), perturbações borderline da personalidade
(dialectical Behaviour Therapy), e a Terapia de Aceitação e compromisso que tem
tido resultados muito positivos principalmente a lidar com perturbações da
ansiedade e com dependências.
Para melhor
compreender este estado, primeiro é importante salientar que, dentro todas as
centenas de técnicas de meditação diferentes que se podem encontrar nas várias
tradições espalhadas pelo mundo se podem enquadrar dentro de dois grandes
grupos:
Técnicas de Insight – implicam uma atenção constante, mas sem julgamentos, a todos os conteúdos que vão surgindo na consciência. O objectivo é ter uma percepção ampla de todos os conteúdos da consciência, sem que haja nenhum envolvimento com estes. Estas tipo de técnicas conduzem a uma expansão da consciência, que se torna capaz de abarcar um número cada vez maior de objectos em simultâneo. Esta técnica é importante para o auto-conhecimento: permite-nos ter uma maior noção do conteúdo das nossas mentes e também de como nos relacionamos com este.
Na prática da
meditação do tipo mindfulness estamos a treinar estes dois tipos ou estratégias
de atenção. Esta é uma prática em que oscilamos entre a concentração e o foco
na respiração, que nos traz a sensação de bem-estar e de tranquilidade e o
deixar a consciência passar pelos vários conteúdos que vão surgindo e que se
vão modificando momento a momento. Kabat-Zinn descreve esta prática como “uma
dança entre uma atenção unifocada da concentração e a consciência mais ampla do
insight.
O trabalho de concentração que se faz focando a atenção
na respiração é essencial e é a base que permite que a mente se mantenha focada
mesmo durante os períodos de insight em que há a tal expansão da consciência.
Este treino da concentração é também essencial para nos trazer a sensação de
bem-estar e de tranquilidade que a meditação pode proporcionar. Na nossa
sociedade não somos ensinados a concentrar a mente desta forma. Quando vemos
televisão, por exemplo, a nossa mente fica num estado passivo, em que se limita
a ser dirigida pelos estímulos externos. O mesmo acontece – embora talvez de
uma forma um pouco menos acentuada – com os jogos e com a internet. Durante
esses períodos (e por isso é que tantas pessoas os usam como forma de se
distrairem ou de fugirem temporariamente aos seus próprios pensamentos ou
emoções) a nossa mente entra numa espécie de piloto automático em que se limita
a ser guiada e levada pelas imagens e sons que vão aparecendo à nossa frente.
Então, se no nosso dia-a-dia
passamos demasiado tempo a abdicar do controlo da nossa mente, a cedê-lo a
qualquer outro aparelho externo é natural que, quando precisamos de nos
concentrar para estudar ou trabalhar, por exemplo, a nossa mente já não esteja
a habituada a ser dirigida desta forma. Ainda para mais se a tarefa for, à
partida, desiteressante para nós, torna-se muito difíicil deixar que a mente
lhe preste atenção.
Por outro lado, os ritmos acelerados em que vivemos e os
estados de tensão e ansiedade também não ajudam a combater a dispersão mental.
Quando estamos constantemente a tentar antecipar o futuro ou presos a alguma
coisa que se passou no passado torna-se muito difícil manter a atenção no
presente.
Então este treino da atenção dá-nos
a capacidade de manter a nossa mente onde precisa de ser mantida. Dá-nos a
capacidade de focar a nossa atenção naquilo que precisa de ser feito em cada
instante da nossa vida.
Viver num estado de dispersão
constante em que nos sentimos constantemente puxados por vários estímulos ou
pelos nossos próprios pensamentos pode ser muito desgastante e leva-nos a um
sentimento de exaustão. Este treino da atenção também nos permite repousar
verdadeiramente a nossa mente. A concentração permite-nos abrandar um pouco a
velocidade dos pensamentos e isto dá-nos a possibilidade de descansar de
repousar. Para além disto, sermos capazes de nos concentrar também significa
que passamos a ser capazes de apreciar verdadeiramente as coisas boas da vida.
Quantas vezes estamos de férias preocupados com o trabalho? Ou quantas vezes
estamos a saborear um bom almoço preocupados com a loiça que teremos que
arrumar a seguir e com o supermercado a que ainda não fomos? Quantas vezes
estamos na praia a ver um belo por do sol e não conseguimos apreciá-lo em toda
a sua beleza porque não paramos de nos preocupar com aquilo que dissemos numa
discussão feia que tivemos no dia anterior? Quantas vezes não somos capazes de
saborear os momentos simples da vida porque estamos tão preenchidos com
pensamentos acerca do futuro ou do passado que se torna impossível focar a nossa
atenção no presente. O treino da concentração traz-nos esta capacidade de viver
mais plenamente cada instante da nossa vida.
É importante frisarmos que para meditar não precisamos de
parar os nossos pensamentos. Muitas vezes existe esta noção que acaba por criar
apenas uma luta interior que só provoca tensão e desconforto. Por vezes os
estados de concentração podem trazer-nos um certo abrandar do ritmo dos
pensamentos mas, o mais importante é que através da meditação - aqui é o onde o
insight se torna um aspecto essencial da prática – podemos aprender a
relacionar-nos de forma diferente com os nossos pensamentos. Não precisamos de
desejar que estes parem ou desapareçam porque percebemos que podemos apenas
mudar a nossa relação com estes.
Então, se a concentração é um aspecto essencial da
meditação podemos dizer que o insigth é também fundamental para o crescimento
psicológico que a meditação nos pode trazer. É através da expansão da
consciência que o insight proporciona que podemos tornar-mos mais conhecedores
do conteúdo das nossas mentes. E, conhecendo essse conteúdo, o mindfulness,
permite-nos também passar a relacionarmo-nos com ele de outra forma. Com a
expansão da consciência que o insight provoca torna-se muito mais nítidos os
nossos pensamentos, as nossas emoções, podemos ver mais claramente todo o
conteúdo da nossa mente e começar a perceber que existem determinados padrões,
padrões de pensamento, de sentimento. Começamos a perceber que poderá haver uma
tendência para determinados pensamentos estarem presentes e que esses
pensamentos, por sua vez, estão relacionados com determinados sentimentos. E,
com este conhecimento vem também a liberdade: a liberdade de percebermos que
não somos obrigados a ficar presos nem a esses pensamentos nem a essa ligação
entre eles e determinadas emoções. Começamos a perceber, primeiro, que os
nossos pensamentos e emoções mudam a cada instante a cada momento e, depois,
percebems também que há algo mais para além deles. Que não somos só os nossos
pensamentos as nossas emoções, os nossos sentimentos. E essa visão de que há
algo mais para além de todo este nosso conteúdo mental pode ser muito
libertadora. Começamos a perceber que temos escolha na forma como nos sentimos,
na forma como reagimos a todas as situações da nossa vida.
O mindfulness também nos torna mais conscientes do corpo.
O facto de aprendermos a observar a nossa respiração e o corpo momento a momento,
aceitando e acolhendo as sensações que vão surgindo tal como são, torna-nos
mais capazes de viver com o nosso corpo no dia-a-dia e com as sensações e
emoções que este nos traz. Isto pode ter também um efeito muito libertador
porque nos permite perceber que não precisamos de viver apenas de um modo
racional. Quando estamos muito habituados a refugiar-nos nos nossos pensamentos
para lidar com tudo o que vai acontecendo podemos ficar facilmente exaustos com
os nossos próprios diálogos internos cada vez que estamos perante um desafio
importante. Porque o grau que temos sobre os nossos pensamentos é muito mais
pequeno do que aquilo que gostamos de pensar o que acontece é que, muitas
vezes, pode-se tornar bastante desgastante tentarmos controlar as nossas emoções
através destes. E quanto mais importantes forem esses desafios, mais difícil
ainda se torna manter o controlo dos nossos estados internos. Então entramos
num ciclo de luta connosco próprios que só leva a mais cansaço e a uma sensação
de desespero que não seremos capazes de controlar. A única forma de quebrar
este ciclo é aprendermos a observar e a aceitar todos os aspectos da nossa
experiência sem nos deixarmos levar pela sensação de descontrolo perante as
emoções mais difíceis, usando a respiração e a consciência do corpo como as
nossas âncoras, o nosso porto seguro no meio das tempestades.
O facto de nos tornarmos mais conscientes e com uma maior
aceitação do corpo e das suas mensagens, pode também contribuir de uma forma
muito positiva para a melhoria da nossa saúde visto que estaremos mais aptos a
ler as suas mensagens que nos permitem aprender a cuidar melhor de nós.
Efeitos fisiológicos do Mindfulness – Como a Atenção
Plena pode mudar o nosso corpo
Existem vários trabalhos de investigação que mostram que
a prática da meditação do tipo mindfulness pode mesmo provocar algumas
alterações no funcionamento do nosso organismo.
Um estudo de Davidson (2003, cit por Kelly, 2008)
mostrou que a meditação mindfulness produzia alterações significativas no cérebro
e no sistema imunitário e um estudo de Newberg et e all (2001, cit por Kelly
2008) descobriu que esta prática aumentava o fluxo sanguíneo no tálamo, no gyro
cingular, no cortex inferior e no frontal orbital e no cortex prefrontal em
praticantes de meditação Budista. O aumento do fluxo sanguíneo poderá estar
relacionado com uma maior utlização dessas zonas.
Ryback (2006) explica que a meditação mindfulness pode
proporcionar um maior equilíbrio entre a parte cortéx frontal dos dois
hemisférios. E, segundo este investigador, com essa melhoria, pode passar a
haver um acesso mais directo à intuição já que se torna mais fácil estabelecer
as ligações que existem entre o cortéx pré-frontal, a amigdala e a relação
cérebro-gastrointestinal que está associada aos instintos. Há estudos que
indicam que existem fibras que ligam as partes do cérebro associadas ao
pensamento com o tracto digestivo e acredita-se que isto contribui para o o
instinto em algumas situações, na língua inglesa existe até a expressão gut feeling que ilustra esta relação
entre o cérebro e o intestino.
O trabalho da neurocientista Dr. Candace Pert sobre os
neuropéptidos ilustra bem esta relação que existe entre o cérebro e outros
sistemas no nosso corpo. Os neuropéptidos são neurotransmissores, ou seja,
moléculas que o corpo usa para transmitir informações entre os vários sistemas
do organismo. Esta cientista chamou a essas substâncias as moléculas das
emoções porque cada vez que temos uma determinada emoção, pensamento ou
sentimento, são libertados vários neuropéptidos que provocam toda uma série de
alterações fisiológicas que correspondem a esse pensamento ou emoção. Esta
cientista descobriu que no nosso sistema digestivo, nomeadamente nos intestinos
e no sistema imunitário havia uma grande concentração de neuropéptidos, bem
como no sistema límbico, uma zona do cérebro que a neurociência tem vindo já há
algum tempo a associar às emoções. A novidade no trabalho desta investigadora
está no facto deste ter encontrado provas convicentes de que realmente o nosso
sistema imunitário e nosso sistema digestivo têm uma espécie de via rápida do
ponto de vista fisiológico ou bioquímico para comunicar com o nosso cérebro
através do sistema limbíco, reagindo assim prontamente às nossas emoções,
pensamentos e sentimentos.
Gabor Mate, no seu livro escreve que :“O sistema
hormonal do corpo está inextrincavelmente ligado aos centros cerebrais, onde as
emoções são experienciadas e interpretadas. Por seu turno, o aparelho hormonal
e os centros emocionais estão interligados com o sistema imunitário e o sistema
nervoso. Estes não são quatro sistemas separados, mas um supersistema que
funciona como uma unidade para proteger o corpo de invasões externas e de
perturbações à sua condição fisiológica interna. É impossível para qualquer
estímulo stressante, crónico ou agudo, agir apenas numa parte do sistema. O que
acontece com um, afecta todos.” (2003, Pg 61) Esta interligação que existe
nestes sistemas do nosso organismo, mostra que, se formos capazes de eliminar a
resposta de stress, através da meditação, por exemplo, então todo o nosso
organismo funcionará melhor e de forma mais eficiente, visto que tudo está
interligado.
Ao nível do sistema imunitário podemos citar um
estudo de Ott, Norris, Bauer-Wu (2006) efectuado com doentes de cancro que
mostrou que a prática desta meditação poderia ser uma forma de melhorar o
funcionamento do seu sistema imunitário bem como as perturbações de humor que
geralmente acompanham estes doentes e a sua qualidade de vida. Esta prática
contribuia também para diminuir os sintomas de stress, verificando-se uma
diminuição dos níveis de cortisol durante o dia. Neste estudo verificou-se
também que o factor que mais
influenciava a capacidade do mindfulness contribuir para estas melhorias
era o número de sessões de meditação a que os doentes tinham assistido.
Um investigador que teve um papel importante na
compreensão acerca da forma como a meditação nos pode trazer benefícios foi
Herbert Benson que escreveu, nos anos 70, um livro que já se tornou um clássico
e que continua bastante actual: A
Resposta de Relaxamento. Na altura em que este médico se começou a
interessar pela meditação e pelos seus efeitos a prática mais estudada e uma
das mais populares no ocidente era a meditação transcendental, uma prática
tornada popular pelo Maharishi Mahesh Yogi que a ensinou aos Beatles que
contribuiram muito para a sua divulgação. Benson era um médico que procurou
compreender os efeitos da meditação e com base nos seus estudos concluiu que a
meditação despoleta um mecanismo a que chamou a Resposta de Relaxamento. Para
Benson (2001) este é um mecanismo inato, ou seja, todos temos capacidade de o
acionar (mesmo que precisemos de aprender a fazê-lo), que nos protege contra os
efeitos do stress excessivo e que poderia ser considerado o oposto da Resposta
de Luta ou Fuga. Segundo Benson (2001), este mecanismo diminui o metabolismo, o
ritmo cardíaco, e traz de volta o equilíbrio natural do corpo, reduzindo a
actividade do sistema nervoso simpático. Este médico teve o mérito de ser um
dos primeiros a reconhecer a importância da ligação mente-corpo no campo da
medicina e, com base em algumas investigações que fez concluiu ainda que a
meditação poderia ser uma forma eficaz de tratar alguns casos de hipertensão
arterial visto que, de acordo com as suas observações, a resposta de relaxamento afecta os mesmos mecanismos e diminui a
pressão arterial pelos mesmos meios que algumas drogas anti-hipertensivas
(Benson, 2001).
Para este
autor, para despertar esta resposta de relaxamento, era necessária a repetição
de algum tipo de objecto mental – algo em que a pessoa pudesse focar a sua
atenção como um som, uma frase, uma imagem, etc – e uma atitude passiva, ou
seja, sem preocupações acerca de quão bem se está a usar a técnica, pondo de
lado os pensamentos distratores e voltando sempre ao foco de atenção. Esta
descrição revela-nos um processo muito semelhante ao que é sugerido na
meditação mindfulness em que os aspectos fundamentais são mesmo a ausência de
julgamentos e a capacidade de redireccionar a atenção uma e outra vez para a
respiração ou outro estímulo em que queiramos concentrar-nos.
Benson, que se
dedicou a estudar este fenómeno da resposta de relaxamento, liderou e
participou em algumas investigações que demonstraram que esta era eficaz a
tratar a hipertensão, as dores de cabeça, as irregularidades no ritmo cardíaco,
o síndroma pré-menstrual, a ansiedade e a depressão ligeira a moderada (cit por
Benson, 2001).
Benson
procurou que os seus estudos ajudassem a perceber melhor porque mecanismos é
que a meditação nos traz estes benefícios e assim descobriu que durante a
meditação há uma redução marcada do consumo de oxigénio. Segundo as suas
observações, Benson explica que, de um ponto de vista fisiológico, a maior
alteração associada à meditação é uma diminuição do metabolismo a que se chama
hipometabolismo e a que está associado um estado de descanso, em que é reduzido
o consumo de energia, tal como acontece no sono. No entanto na meditação esta
diminuição do consumo de oxigènio acontece de forma diferente: durante o sono
este consumo diminui lentamente, até que, ao final de quatro ou cinco horas é
cerca de 8% mais baixo do que quando estamos acordados. Mas, durante a
meditação, a diminuição é, em média, de 10 a 20% e acontece logo nos primeiros três
minutos de prática (Benson, 2001). O autor afirma que não é possível conseguir
uma diminuição desta intensidade de mais nenhuma forma. Na verdade há muito
poucas condições que produzam uma diminuição do consumo de oxigénio. O sono, como
vimos, é uma delas e a hibernação outra. Mas, na hibernação diminui a
temperatura rectal, o que não acontece na meditação. Além disso, na meditação
também aumentam as ondas alfa que costumam aparecer apenas quando o sono é
muito profundo. Por outro lado, Benson (2001) encontrou também na meditação uma
diminuição marcada do lactato sanguíneo, uma substância associada a níveis
elevados de ansiedade. Com este hipometabolismo o ritmo cardíaco diminui umas
três batidas por minuto e a respiração também se torna mais lenta.
Benson
verificou ainda que os praticantes de meditação transcental tinham tendência
para diminuir o seu consumo de todo o tipo de drogas. Na verdade, hoje em dia,
já há algumas psicoterapias em que as técnicas de mindfulness são usadas
justamente para combater dependências químicas. Estes efeitos da meditação
podem acontecer por duas vias: por um lado a meditação ajuda-nos a estar mais
conscientes dos nossos estados internos, do nosso corpo e das nossas emoções;
isto amplia também a nossa consciência dos efeitos de todas as substâncias
nocivas no nosso corpo, levando-nos a estar mais conscientes dos seus prejuízos
para a nossa saúde e, consequentemente, dá-nos mais vontade de eliminar todos
os comportamentos que lhes estão associados. Por outro lado, a meditação também
nos pode ajudar a lidar melhor com a ansiedade e outras emoções difíceis que a
abstinência provoca, dando-nos uma ferramenta que nos faz sentir muito mais
capazes de lidar com essas sensações desagradáveis e de encontrar estratégias
mais saudáveis para lidar com as emoções. Para além disto as sensações
agradáveis que encontramos na prática da meditação podem também ser uma forma
mais saudável de encontrarmos algumas sensações de preenchimento e bem-estar
que algumas substâncias psico-activas podem também provocar. Esta foi umas das
conclusões de um estudo feito por Leo Matos (1987)
que entrevistou um grupo de toxicodependentes em recuperação que usavam a
meditação como forma de lidar com a sua abstinência.
Ao nível cerebral, para além
da alteração do tipo de ondas produzidas que é possível verificar através dos
Electroencefalogramas –sabendo-se que, durante a meditação, se produzem
sobretudo ondas do tipo alfa – também já foi verificado que a meditação pode
provocar uma maior sincronização ou
coerência entre diferentes áreas corticais, o que significa que há mais áreas
do cérebro activas ao mesmo tempo. O cortex certebral é a parte do cérebro que
está mais ligada aos processos criativos e ao pensamento complexo. Alguns
investigadores sugerem que isto produz uma base para uma maior criatividade e
crescimento psicológico. Mas a verdade é que esta coerência também pode ocorrer
na esquizofrenia e a na epilepsia, pelo que não há certezas acerca do seu
significado.
Chris Mace (2008) descreve um estudo um pouco diferente
daqueles que habitualmente se fazem. Neste estudo, em vez de se analisarem do
ponto de vista funcional os eitos da meditação, os investigadores obervaram que
a meditação produzia alguns efeitos na própria anatomia do cérebro. Para
chegarem a esta conclusão, os investigadores (Lazar, et e all), observaram o
cérebro de vinte praticantes de meditação com um mínimo de 2 anos e uma média
de 9 anos de prática, comparando os seus córtexes cerebrais com o cortéx de 15
não praticantes. Aquilo que se verificou foi que o cortex dos praticantes de
meditação era significativamente mais espesso em muitas áreas, nos dois
hemisférios, embora não fosse mais espesso que os do grupo de controlo, no
geral. Isto quer dizer que havia diferenças claras entre os dois grupos mas
estas localizavam-se apenas em ambos os lados do córtex pré-frontal e à volta
da insula direita (uma estrutura cerebral que se acredita ter alguma relação
com a forma como se gera a consciência e com as emoções). Quanto mais velho era
o sujeito maior era esta diferença, sugerindo que a meditação poderia estar a
prevenir um processo que ocorreria naturalmente com a idade, em que esta zona
do cérebro se tornaria progressivamente mais fina. Este estudo tem sido tomado
como evidência de que o tipo de atenção que se desenvolve na meditação provoca
um crescimento neuronal em áreas do cérebro que é provável que sejam activadas
durante a meditação.
Dan Siegel, psiquiatra do Mindsight institute, nos E.U.A.
nas suas pesquisas acerca dos efeitos do mindfulness observou que esta prática
activa no cérebro as mesmas zonas que costumam activar-se quando as crianças se
sentem vistas e incondicionalmente amadas pelos seus pais. No seu percurso de
desenvolvimento a criança forma com a mãe (ou com a pessoa que mais tempo cuida
dela) aquilo a que Jonh Bolwby chamou apego. Esta expressão traduz uma
vinculação muito forte que a criança começa por formar, geralmente, primeiro
com a mãe e depois também com o pai. A criança quando nasce vem programada para
receber e também para dar amor incondicional aos seus pais mas, acontece que,
por muito amor que estes tenham nem sempre é fácil demonstrá-lo. Criar esta
vinculação com a criança, por um lado, exige tempo que nem sempre as mães ou
pais têm, por outro exige uma disponibilidade emocional que também nem sempre é
fácil de conseguir. Então, o que acontece é que, por um motivo ou outro, a
criança começa a perceber que os pais não estão sempre disponíveis e que, mesmo
quando estão disponíveis fisicamente nem sempre o estão de um ponto de vista
emocional. O ser humano nasce num estado de dependência total e, talvez por
isso mesmo, vem programado para criar laços e ligações profundas e, se a mãe ou
o pai estiverem disponíveis para cuidar da criança e para lhe dar esse amor
incondicional de que precisa então a criança forma uma vinculação segura com os
pais mas, acontece que, nem sempre é fácil para os pais trasmitirem esse amor
incondicional à criança. Quando isto acontece, quando a criança não consegue
desenvolver um apego seguro com os seus pais, então acabam por ficar algumas
lacunas, feridas ou inseguranças no seu desenvolvimento. (ler artigo sobre Apego)
Aquilo que Dan
Siegel verificou foi que o mindfulness tinha a capacidade de ajudar a curar essas feridas ao contribuir
para activar um padrão cerebral idêntico ao que é ativado nos cérebros de
pessoas que estabeleceram um processo de vinculação seguro. Isto acontece
porque ao cultivarmos um estado de mindfulness estamos justamente a dar a nós
mesmos aquilo que todas as crianças querem dos seus pais: atenção plena e
incondicional. Quando praticamos a atenção plena, ou o mindfulness, estamos a
desenvolver uma atitude de abertura e de aceitação à nossa experiência, aos
nossos sentimentos aos nossos pensamentos. Através do mindfulness passamos a
ser mais capazes de aceitar os pensamentos, as sensações. Quando nos treinamos
para observar sem julgamentos percebemos que passamos muito tempo a lutar com
os nossos pensamentos, passamos muito tempo a tentar evitar determinadas
emoções, determinadas sensações. Por condicionamentos da nossa infância muitos
de nós crescem a acreditar que determinadas emoções ou pensamentos não devem
existir e a luta para os erradicar acaba por originar apenas sofrimento e
cansaço. Então com a prática do mindfulness aprendemos a largar essas lutas e,
por sua vez, isso acaba mesmo por fazer com que o sofrimento
desapareça.
Siegel (2005, cit por Ryback, 2006) diz que a “prática de
mindfulness, as ligações profundas e afectuosas e uma terapia eficiente fazem
todas a mesma coisa: modificam o cérebro construindo fibras integrativas mais
fortes, resultando em estados emocionais mais equilibrados….Com o
fortalecimento dessas fibras integrativas há mais equílibrio entre os
hemisférios corticais direito e esquerdo (posto de forma simples, emocional e
lógico respectivamente), logo passa a haver mais equilíbrio emocional, mais
flexibilidade de resposta e maior capacidade para a empatia e auto-consciência.”
Hoje em dia sabemos que o
nosso cérebro tem uma grande capacidade de se modificar de acordo com as nossas
experiências e que essa capacidade, apesar de estar mais presente na infância,
se pode manter ao longo de todas as nossas vidas. Chama-se a esta capacidade
neuroplasticidade e é graças a ela que a prática do Mindfulness nos pode ajudar
a transformar a nossa experiência e a nossa vida.
Laura Sanches
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
Reacções Primitivas num Mundo Moderno - A Resposta de Luta ou Fuga e os efeitos fisiológicos do Stress
A resposta de
stress começa, em primeiro lugar com a avaliação que fazemos das situações.
Esta avaliação nem sempre acontece de forma consciente mas, sempre que estamos
perante um desafio ou uma situação nova, o que fazemos é avaliar os recuros que
possuímos e aqueles que a situação nos exige. Se o
peso das exigências for
maior que o dos recursos que possuimos então vão-se desencadear toda uma série
de respostas fisiológicas, a que Walter Cannon chamou Resposta de Luta ou Fuga
porque, justamente, parecem servir para cumprir o propósito de preparar o nosso
organismo para uma resposta rápida e o mais eficaz possível quando é preciso
lutar ou fugir. Esta resposta acontece nos seres humanos mas também nos animais
sempre que precisam de enfrentar um determinado perigo. Esta resposta prepara o
organismo para lidar da forma mais eficaz possível com as ameaças que possam
surgir e pode ser um mecanismo muito eficaz para lidar com algumas situações de
emergência. É este mecanismo que possibilita os relatos fantásticos que por
vezes ouvimos de mães que tiraram filhos de prédios a arder, ou de pessoas que
foram capazes de levantar um carro sozinhas para salvar um familiar que estava
preso debaixo dele. Estes feitos são possíveis apenas durante os instantes em
que esta resposta está activa graças a todas as modificações que ela provoca no
nosso organismo e que vamos ver quais são.
Esta resposta
começa no sistema nervoso, que tem como função controlar todas as actividades
automáticas essenciais para a sobrevivência e para manter a homeostase do
organismo, é o responsável pela orquestração desta resposta de alarne. Este
sistema divide-se em duas partes: o sistema nervoso simpático e o
parassimpático. O sistema nervoso simpático é o responsável pela activação e
pela manutenção da resposta de luta ou fuga e o sistema nervoso parassimpático
é aquele que é accionado quando decidimos que o perigo desapareceu e se torna
possível descansar, permitindo que o equilíbrio fisiológico se restaure e que
possa surgir uma sensação de relaxamento pela qual este sistema é o
responsável.
A primeira
parte do nosso corpo a reconhecer o perigo e a fazer soar o sinal de alarme é a
amígdala, uma estrutura certebral que faz parte do sistema límbico, a zona do
cérebro que, nos mamíferos, está relacionada com as emoções e os sentimentos. A
amígdala está relacionada com a nossa memória emocional e, ao que parece é a
estrutura responsável, pelo armazenamento de informação acerca daquilo que pode
ser perigoso para a nossa integridade. Então esta estrutura cerebral funciona
como uma espécie de alarme para todas as situações de medo e, juntamente com o
hipotálamo é uma das principais responsáveis pela activação da resposta de luta
ou fuga.
O hipotálamo,
juntamente com as estruturas que formam o sistema límbico, é um dos
responsáveis pelo controlo das emoções (Dobson, 1982, pg. 107). Então, assim
que a amígdala reconhece uma ameaça e faz soar o alarme, o hipotálamo vai fazer
com que todo o organismo entre no modo de defesa ou ataque. Através do controlo
que o hipotálamo tem sobre a glândula pituitária, este vai fazer com esta
segrege as hormonas que iraão servir para mediar as reacções de stress.
Podemos dizer
que o hipotálamo é uma espécie de mediador entre os pensamentos e as reacções
fisiológicas que, por sua vez, estão associadas a determinadas emoções.
Então, quando
experimentamos uma emoção de tensão, stress, ou ansiedade, dando início à
resposta de luta ou fuga, o Hipotálamo começa a segregar um elemento libertador
de corticotrofina (CRF) que regula a secreção da maior parte das hormonas
trópicas da glândula pituitária, estas são hormonas que actuam sobre outras
glândulas endócrinas e regulam as suas secreções. Então o CRF segue para a
glândula pituitária, para que esta comece a segregar a hormona adrenocorticotrópica
(ACTH) que é uma substância informadora, o que significa que irá ser
transportada pela corrente sanguínea até às glândulas supra-renais também
conhecidas por glândulas adrenais, levando-as a segregar glicocorticóides
(assim chamados porque aumentam os níveis de glicose no sangue) e hormonas
esteróides, das quais uma das mais importantes é o cortisol, também chamado de
hidrocortisona, que regula as funções cardiovasculares, metabólicas e
imunológicas.
Como esta
relação mente-corpo é bidireccional, também é possível verificar que, se forem
injectados na corrente sanguínea esteróides, isto faz também aumentar a
sensação de stress que a pessoa experiencia. Verifica-se também que as pessoas
deprimidas têm tipicamente níveis muito altos destes esteróides.
Mas qual o papel destas hormonas no nosso organismo?
Assim, existem três hormonas
principais na orquestração desta resposta em todo o organismo:
- Adrenalina: Libertada pela medula adrenal. Também conhecida como
epinefrina, esta hormona está mais associada à resposta de fuga, por isso é
libertada em maiores quantidades em situações com as quais nos sentimentos
incapazes de lidar, nas situações de Distress. A adrenalina é uma hormona que
está geralmente associada às sensações de medo, de incerteza, de preocupação,
insegurança e ansiedade.
Produz
um aumento da pressão arterial e mobiliza o glicogénio que se encontra nos
tecidos corporais. Causa a vasoconstrição da superfície corporal para minimizar
o sangramento em situações de emergência e é responsável pelo aumento do nível
de açúcar no sangue. Liberta ácidos gordos na corrente sanguínea que ajudam a
gerar a energia extra requerida. Se estes não forem usados irão permanecer no
corpo por um longo período de tempo.
Provoca um
aumento da frequência dos batimentos cardíacos e do volume de sangue bombeado
em cada batimento, o que, por sua vez, leva a um aumento da tensão arterial -
que traduz a pressão que o sangue exerce na parede das artérias e veias quando
passa por elas. Esta hormona também leva a um aumento dos níveis de açúcar no
sangue, para que haja mais energia disponível e leva a que o sangue seja
distribuído principalmente pelos músculos voluntários das pernas e braços,
sendo ainda a responsável pela contracção dos músculos necessários para fugir.
A adrenalina
também faz com que as gorduras sejam queimadas, para gerar energia. E é também
responsável por fazer com que haja uma diminuição da circulação sanguínea à
superfície (o que pode tornar a pessoa mais pálida; daí a expressão branca de medo) e dos órgãos do sistema
digestivo, aumentando o afluxo de sangue nos grandes músculos do corpo. Esta
hormona é ainda é responsável pela erecção dos pelos, um mecanismo que será
talvez herdado dos tempos do homem primitivo com o objectivo de lhe dar um ar
mais volumoso e ameaçador, à semelhança do que acontece, por exemplo, com o os
gorilas e outros primatas.
Noradrenalina – pode ser também chamada de norepinefrina e esta é
uma hormona produzida pela medula da glândula supra-renal, tal como a adrenalina
(mas funciona independentemente desta) mas que pode também ser segregada pelas
fibras nervosas, visto que é um dos principais neurotransmissores do sistema
nervoso. Ao contrário da adrenalina, esta está mais associada a uma reacção de
luta. Assim, a noradrenalina aparece mais nas situações de Eustress, aqueles
desafios com que nos sentimos capazes de lidar e está relacionada com todas as
sensações agradáveis que surgem nestas alturas, como uma certa euforia, por
exemplo. A concentração desta hormona no sangue aumenta também quando se faz
exercício físico e esta pode estar associada às sensações de bem-estar que
surgem depois de exercícios vigorosos. Alguns anti-depressivos têm o efeito de
estimular a sua produção, já que esta é uma hormona que se associa a um humor
positivo e, um défice na sua produção, está geralmente associado à depressão.
Estimular a libertação desta hormona poderá ser também uma das razões pelas
quais o exercício físico é uma boa forma de combater os estados depressivos.
Esta é uma hormona que parece também ter alguma relação com a capacidade de
atenção por isso, nas desordens do défice de atenção, alguns fármacos procuram
também estimular a sua produção.
A
noradrenalina tem ainda o efeito de provocar a dilatação das pupilas,
melhorando a nossa visão periférica e a visão nocturna e faz que com que haja
também uma dilatação das passagens do ar nos pulmões.
O aumento da concentração desta hormona no
sangue pode também, por vezes, estar associado a reacções mais agressivas e
está relacionada com a tensão nos músculos faciais, nos ombros e nos punhos
cerrados. A noradrenalina, tal como a adrenalina, também contribui para a
subida da tensão arterial e para o aumento do ritmo cardíaco. Também provoca
uma diminuição da circulação nos rins e no fígado.
Cortisol – É uma das hormonas mais importantes segregadas pelas
glândulas supra-renais, segundo Gabor Mate (2003) “o cortisol é a hormona mais
central para a resposta de stress e aquela que os estudos mostram que fica mais
desregulada depois do stress crónico.”
Uma
das suas funções é sensibilizar os órgãos para a adrenalina e noradrenalina.
Quando é segregada em quantidades normais, esta hormona tem o papel de
estimular a actividade do sistema imunitário mas, quando é despoletada a
Resposta de luta ou Fuga, os níveis de cortisol na corrente sanguínea aumentam
bastante e este passa a ter o efeito de inibir temporariamente o sistema
imunitário e de suprimir a resposta febril. Podemos perceber a utilidade desta
resposta se pensarmos, por exemplo, num homem primitivo contagiado pelo vírus
da gripe, deitado na sua gruta cheio de febre, que não é mais que uma resposta
do sistema imunitário, que aumenta a sua produção de glóbulos brancos para
eliminar o vírus reconhecido como uma potencial ameaça. De repente surge na
entrada dessa caverna um tigre e naquele momento, o organismo precisa de decidir
rapidamente qual é a ameaça maior: o vírus da gripe ou o tigre que o pode comer
a qualquer instante. Assim, a resposta febril é temporariamente suprimida, o
que significa que o homem poderá voltar a ter forças para fugir do tigre. Lipton
diz-nos que o sistema imunitário é o sistema que mais energia consome no nosso
organismo, assim para que esta energia possa ser canalizada para outras
funções, este sistema é dos primeiros a sofrer com o stress, sendo parcialmente
desactivado pelo cortisol.
O cortisol
também faz com que certos ácidos deixem de ser removidos da corrente sanguínea.
A libertação de cortisol na corrente sanguínea também faz com que seja desfeito
o tecido magro, para que este se converta em açúcar, como fonte de energia,
aumentando assim os níveis de açúcar no sangue. O cortisol, quando existe em
excesso na corrente sanguínea, também pode contribuir para uma alteração dos
padrões de sono, provocando insónias. Leva também a um aumento do apetite e da
ingestão calórica e faz com que a gordura se acumule principalmente na zona do
abdómen, do tronco e da face, locais onde esta será mais facilmente acessível
para o caso de ser preciso convertê-la em energia. De um ponto de vista psicológico o cortisol
está muito relacionado com os sentimentos de fracasso, de incapacidade, de
desespero, de ansiedade crónica e depressão.
O cortisol
também ajuda o sangue a coagular mais depressa o que, em caso de ferimentos,
poderá ser uma preciosa ajuda a sobrevivência, visto que diminuirá o tempo que
as feridas ficarão a sangrar.
Todas
estas reacções fisiológicas começam a acontecer assim que entramos naquilo a
que Hans Selye – um médico que se dedicou ao estudo desta resposta - chamou a Reacção de Alarme. Se se mantiver o
estímulo que provocou esta reacção entramos então, de acordo com Selye, na fase de Resistência em que estas
reacções irão manter-se pelo tempo que durar a ameaça.
È aqui que começam a surgir os problemas e, é nesta fase, que este mecanismo evolutivo que poderá ser útil em determinadas situações, pode começar a voltar-se contra nós levando-nos assim a entrar na Fase de Exaustão. Na verdade, quando estamos perante uma ameaça à nossa sobrevivência física é natural que estas respostas se dêem, levando-nos á reacção correspondente e, assim que esta ameaça desaparece, voltamos novamente a um estado de equilíbrio fisiológico. Podemos pensar no exemplo de alguém que atravessa uma estrada, de repente, surge um carro com que a pessoa não contava a grande velocidade e capaz de a atingir. A pessoa assusta-se, todo o seu corpo se mobiliza, os músculos contraem-se, o coração bate mais forte, a respiração fica mais rápida, os reflexos mais aguçados e a pessoa corre rapidamente para o passeio escapando assim por um triz. Durante os curtos segundos em que o seu corpo precisa de fugir acontecem muito rapidamente todas estas alterações mas, assim que chega ao passeio e se sente segura, em pouco tempo, o seu corpo desliga esta resposta de fuga e o equilíbrio é retomado sem grandes consequências, pelo menos no caso de uma pessoa saudável. Este mecanismo é provavelmente um dos responsáveis pelo facto das pessoas serem capazes de cometer os actos mais incríveis em situações de perigo, como mães que salvam os filhos de incêndios reagindo e movendo-se a velocidades impressionantes, ou pessoas capazes de levantarem pesos incríveis para salvarem os seus entes queridos em situações de acidentes, por exemplo; isto acontece porque realmente o nosso corpo, naqueles instantes, mobiliza todos os seus recursos para ser capaz de lidar com aquele acontecimento. Na verdade, sempre que é activada esta resposta de Luta ou Fuga, todos os nossos instintos ficam mais apurados.
È aqui que começam a surgir os problemas e, é nesta fase, que este mecanismo evolutivo que poderá ser útil em determinadas situações, pode começar a voltar-se contra nós levando-nos assim a entrar na Fase de Exaustão. Na verdade, quando estamos perante uma ameaça à nossa sobrevivência física é natural que estas respostas se dêem, levando-nos á reacção correspondente e, assim que esta ameaça desaparece, voltamos novamente a um estado de equilíbrio fisiológico. Podemos pensar no exemplo de alguém que atravessa uma estrada, de repente, surge um carro com que a pessoa não contava a grande velocidade e capaz de a atingir. A pessoa assusta-se, todo o seu corpo se mobiliza, os músculos contraem-se, o coração bate mais forte, a respiração fica mais rápida, os reflexos mais aguçados e a pessoa corre rapidamente para o passeio escapando assim por um triz. Durante os curtos segundos em que o seu corpo precisa de fugir acontecem muito rapidamente todas estas alterações mas, assim que chega ao passeio e se sente segura, em pouco tempo, o seu corpo desliga esta resposta de fuga e o equilíbrio é retomado sem grandes consequências, pelo menos no caso de uma pessoa saudável. Este mecanismo é provavelmente um dos responsáveis pelo facto das pessoas serem capazes de cometer os actos mais incríveis em situações de perigo, como mães que salvam os filhos de incêndios reagindo e movendo-se a velocidades impressionantes, ou pessoas capazes de levantarem pesos incríveis para salvarem os seus entes queridos em situações de acidentes, por exemplo; isto acontece porque realmente o nosso corpo, naqueles instantes, mobiliza todos os seus recursos para ser capaz de lidar com aquele acontecimento. Na verdade, sempre que é activada esta resposta de Luta ou Fuga, todos os nossos instintos ficam mais apurados.
Diz-nos Lipton
(2008) que as hormonas adrenais também provocam a contracção das veias na parte
da frente do nosso cérebro (limitando assim a sua capacidade de funcionar
eficazmente), que é responsável pela lógica e pela compreensão e que, por isso
mesmo, é muito mais lento do que as acções reflexas que são controladas pela
parte anterior do cérebro. De acordo com Lipton (2008) estas hormonas também
reprimem a actividade no córtex pré-frontal que é o centro da actividade
voluntária. Apesar de, em determinadas situações, isto poder ser útil para nos
ajudar a sobreviver “….vem com um custo: consciência perceptiva diminuída e
inteligência reduzida:” (Takamatsu, et al, 2003, Arnsten and Goldman-Rakic
1998; Goldstein, e tal, 1996, cit por Lipton, 2008, Pg, 120)
É por isto
que, em situações de perigo iminente todos os nossos instintos parecem ficar
mais apurados e somos capazes de tomar decisões muito rápidas quase sem pensar,
aliás, é também por isto que, muitas vezes, quando estamos em situações de
tensão e ansiedade não somos capazes de pensar logicamente em determinadas
questões e, no caso dos estudantes, por exemplo, por muito que se conheça o
tema em questão, por vezes, torna-se mesmo muito difícil se não impossível
pensar sobre ele.
Mas esta
capacidade de resposta que quase sempre desconhecemos em nós até precisarmos de
a usar, esta capacidade de usarmos de repente todos os nossos recursos físicos
e não só para sair de uma determinada situação perigosa para nós ou para
aqueles que nos são queridos, acontece a um preço: há um grande gasto
energético que precisa de ser reposto o mais rapidamente possível, com algum
tempo de repouso que permita ao organismo recuperar toda a energia que precisou
de gastar para lidar com aquele acontecimento.
Quando
as ameaças são de natureza física ou biológica, a maior parte das vezes, têm um
tempo limitado. Mas, no caso de ameaças de natureza psicológica, se não
fizermos nada para as eliminar, a sua presença pode tornar-se constante. Nestes
casos não haverá tempo para recuperar a energia consumida na sua defesa e então
o organismo entra naquilo a que Selye chamou a Fase de Exaustão, sendo aqui que
acontecem os verdadeiros danos para a nossa saúde. O que mais impressionou
Selye na investigação com os ratinhos que eram colocados em ambientes mais
frios do que aquele a que estavam adaptados foi que, mesmo que depois de algum
tempo os ratinhos fossem retirados desse ambiente, passando a estar em
condições mais favoráveis, com uma temperatura agradável e com comida
suficiente, os que tinham estado durante demasiado tempo no ambiente frio já
não eram capazes de sobreviver mesmo num ambiente de temperaturas favoráveis.
Era como se se tivessem esgotado já todas as reservas energéticas do seu
organismo. Assim Selye concluiu que o stress, quando prolongado por períodos
demasiado longos leva a um gasto de energia que o organismo poderá não ter como
repor. Para Selye a morte acontecia justamente porque determinados órgãos do
nosso corpo acabavam por entrar em desgaste devido às várias situações de
stress que iam sofrendo ao longo da vida.
Sabemos
também hoje em dia que o facto de vivermos sob uma tensão que se mantenha de
modo mais ou menos constante irá fazer com estas alterações fisiológicas se
mantenham ao longo do tempo. Assim uma coisa que em muitas investigações se observa
é que as pessoas deprimidas ou ansiosas, por exemplo, têm níveis
permanentemente elevados de cortisol na sua corrente sanguínea. Isto significa
que o organismo estará sempre a funcionar de uma forma que não corresponde a um
verdadeiro estado de equilíbrio. Um dos efeitos do cortisol, como já vimos, é a
supressão do sistema imunitário, então uma pessoa com níveis elevados de
cortisol na sua corrente sanguínea estará sempre muito mais sujeita a todo o
tipo de infecções ou de contágios, visto que o seu sistema imunitário não pode
funcionar normalmente. E isto é de facto observado em muitos estudos de
psiconeuroimunologia que mostram que existe realmente uma relação entre os
estados emocionais e o funcionamento do nosso sistema imunitário e que as pessoas
deprimidas ou ansiosas estão mais vezes doentes. Outro efeito do cortisol é o
impedimento da remoção de determinados ácidos da corrente sanguínea, o que irá
levar a um aumento de acidez no estômago que, com o tempo, pode mesmo levar à
formação de úlceras. Como já vimos, o cortisol também tem o papel de promover a
destruição do tecido magro, para que este se converta em açúcar, como fonte de
energia, aumentando assim os níveis de açúcar no sangue. Isto, para além de
poder levar a um quadro do Diabetes do tipo II, pode também contribuir para que
aconteçam perdas musculares além de que o cortisol inibe também a formação de
novas estruturas ósseas, de acordo com Gabor Mate, uma concentração excessiva
de cortisol durante muito tempo na corrente sanguínea, pode mesmo tornar os
ossos mais finos.
Quando o nosso
organismo está num estado de equilíbrio, o sangue está normalmente concentrado
na zona das vísceras, na cavidade abdominal onde se situam tantos órgãos
essenciais ao seu bom funcionamento. Quando esta a resposta de Luta ou Fuga é
activada e o sangue passa a ser desviado desta zona, os processos digestivos
passaram a fazer-se com maior dificuldade, o que significa que não estaremos a
absorver todos os nutrientes necessários, nem a eliminar convenientemente as
toxinas, o que, juntamente com o gasto de energia extra de que precisamos para
lidar com as ameaças constantes, nos fará sentir ainda mais cansados e
fragilizados.
O
funcionamento alterado do nosso sistema cardiovascular poderá também conduzir a
problemas de coração, e estados de hipertensão arterial o que, por sua vez,
poderá levar um quadro de arteriosclerose, um processo de endurecimento das
artérias que poderá por em risco a vida. Herbert Benson (2001), explica que a
arteriosclerose leva a que aconteça “um depósito de coágulos sanguíneos,
gorduras e cálcio nas paredes das artérias, fazendo com que as paredes,
normalmente moles, elásticas e abertas das artérias, se tornem duras,
inflexíveis e, parcialmente ou completamente bloqueadas:” (Benson, 2001, pg.
14). Este médico diz também que “O risco de se desenvolver arteriosclerose ou
endurecimento das artérias está directamente relacionado com o nível da pressão
arterial.” (Benson, 2001, pg. 21). Este endurecimento pode conduzir a doenças
cardíacas ou mesmo ataques cardíacos ou enfartes, ou a Acidentes
vascular-cerebrais (AVC) que podem levar a sérias limitações na qualidade de
vida e que, em muitos casos, levam mesmo á morte. Benson explica que: “….quanto
mais frequentemente activarmos a resposta de luta ou fuga, mais provável é que
desenvolvamos tensão arterial elevada, especialmente se as circunstâncias não
nos permitirem realmente lutar ou fugir.” (Benson, 2001, pg. 47) Isto, aliado ao efeito que o cortisol tem de fazer
com o sangue coagule mais facilmente, poderá ter um efeito altamente nocivo
para a nossa saúde.
Por outro lado
a tensão constante nos músculos das pernas e braços, sempre prontos para agir,
pode levar a dores musculares constantes que podem mesmo chegar a ser bastante
fortes.
As alterações
ao nível da respiração podem também levar a quadros de hiperventilação, que
produz sintomas semelhantes aos que experimentam os montanhistas em grandes
altitudes, como enjoos, náuseas, confusão mental, tonturas, cansaço, dores de
cabeça, Etc. Em situações de tensão, muitas vezes, temos também tendência para
respirar mais com a zona superior dos pulmões, o que significa que estaremos a
usar principalmente os músculos da zona do peito, que são músculos com um papel
apenas secundário na respiração, o que significa, que têm apenas um papel
auxiliar na respiração. Se os tornamos os principais músculos do processo
respiratório é muito provável que passem a surgir também dores musculares na
zona do peito e que aumente ainda mais a sensação de cansaço e falta de ar.
Na verdade
podemos não experimentar, pelo menos de forma consciente, todos estes sintomas.
O que acontece é que, quase sempre, há um dos nossos sistemas que acaba por ser
mais afectado pelos estados de activação constante e, por isso, é nesse que
sentimos mais os efeitos da tensão e stress. Assim, algumas pessoas podem ser
mais dadas a problemas cardiovasculares, por exemplo, outras pessoas poderão
sentir mais transtornos digestivos, para outras ainda será o aparelho
músculo-esquelético o mais afectado e por isso poderão surgir dores musculares
mais ou menos fortes, etc. Na verdade já Selye dizia que a morte acontecia
porque alguns órgãos acabavam por se desgastarem em relação a outros e, quando
a sua falência acontecia, se estes tivessem uma função vital, a morte seria a
última consequência desse desgaste.
Segundo
Lipton, um dos sistemas mais afectados pela activação da Resposta de Luta ou
Fuga é mesmo o sistema imunitário que é também um dos que mais energia consome
no nosso organismo e também um sistema que tem um papel essencial na nossa
qualidade de vida e na nossa capacidade de resposta ao meio ambiente. Este
autor explica que, a acção conjunta das hormonas libertadas pela glândula
adrenal é tão eficaz a suprimir a resposta do sistema imunitário que elas
chegam mesmo a ser receitadas a doentes transplantados, para impedir a rejeição
dos transplantes.
Candace Pert
também salienta a ligação entre o stress e predesposição para se ficar doente,
segunde esta, pode haver situações em que as emoções ficam como que bloqueadas,
como “Quando o stress impede as moléculas da emoção de fluírem livremente para
onde são precisas, os processos largamente autónomos que são regulados pela
corrente dos péptidos, como a respiração, a circulação sanguínea, a imunidade,
a digestão e a eliminação entram em colapso passando a apenas uns circuitos de
feedback e perturbam a resposta de cura normal.” (Pert, 1997, pg. 243) para
Pert, uma das formas de restabelecer este equilíbrio e deixar as emoções fluir
livremente outra vez era a meditação.
Tanto o yoga
como a meditação podem também ter o papel de nos fazer voltar a entrar em
contacto com as emoções e com o corpo para que possamos passar a estar mais
consciente dos sinais que este nos vai enviando.
Laura Sanches
Candace Pert (1997) - Molecules of Emotion
Hans Selye - The Stress of Life
Herbert Benson (2001) - The Relaxation Response
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
Seitas no mundo do Yoga
No dicionário
podemos encontrar a definição de seita como uma doutrina ou sistema que se
afasta da crença geral ou como um grupo de pessoas que professam uma religião
diversa da geralmente seguida. Hoje em dia esta é uma palavra que é usada,
geralmente, com uma conotação negativa e atribuída a grupos marginais da
sociedade que vivem de uma forma que não é bem aceite ou compreendida pelos
demais.
Neste artigo
vamos usar a palavra seita para definir um certo grupo ou escola que vive
fechada sobre si mesma e é liderada por uma figura de autoridade inquestionável
para os seus membros mas questionável aos olhos de todos os outros que estão
por fora desse grupo.
Necessidade de pertença a um grupo
Todos nós,
enquanto pessoa, temos necessidade de sentir que pertecemos a um grupo. Segundo
Jonathan Haidt, investigador e psicólogo, faz parte do ser humano esta
necessidade de sentir que pertecemos a algo maior do que nós próprios. Segundo
este nós não somos animais solitários, o ser humano, enquanto espécie, evoluiu
como membro de um grupo e, por isso precisamos de nos sentir integrados e
acolhidos para sermos felizes e nos sentirmos seguros e preenchidos. Para este
psicólogo é esse um dos grandes benefícios da religião: dar-nos essa sensação
de que pertecemos a algo maior do que nós mesmos, essa sensação que o nosso eu
individual pode fazer parte de algo maior, mais profundo e mais intenso. É
também isso que nos faz gostar de estar no estádio cheio de gente a torcer pela
mesma equipa, ou num concerto por exemplo. Quando estamos no meio de uma
multidão com objectivos comuns isso faz-nos esquecer temporariamente o nosso eu
pequenino, sozinho e limitado e dá-nos uma sensação de sermos maiores, mais
fortes, mais capazes e mais espaçosos. Por momentos cria-se a sensação de que
somos o grupo todo e esse grupo é algo mais poderoso e intenso do que apenas a
soma de todos os eus individuais que o constituem. Nas sociedades orientais,
que são mais sacralizadas, está mais presente essa dimensão do grupo no dia a
dia das pessoas. No ocidente valorizamos mais o indivíduo que o grupo e isso,
por vezes, pode trazer-nos uma certa sensação de vazio por falta desse
sentimento de pertença.
Todas as
actividades espirituais, como o yoga ou a meditação, podem ajudar-nos a
resgatar esse sentimento que não somos só este eu limitado e fechado dentro
deste corpo. O Yoga e a meditação podem ajudar-nos a expandir as fronteiras do
nosso eu e a viver mais facilmente essa sensação de sermos mais e maiores do
que aquilo que geralmente percepcionamos na nossa vida diária.
Se essas
actividades acontecerem dentro de um grupo com os mesmos objectivos e
interesses essa sensação grupal torna-se ainda mais forte e isto pode ter
consequências positivas na nossa vida. O problema acontece quando esse grupo é
liderado por alguém que não tem os melhores interesses de cada um dos seus
membros em mente. Infelizmente isto é o que acontece em algumas escolas de yoga
hoje em dia.
Efeitos do
Yoga e Meditação
Quando
praticamos yoga ou meditação entramos em contacto com muitas partes de nós que
nos eram desconhecidas até então. Isto quer dizer que descobrimos uma outra
dimensão do nosso eu, da nossa personalidade e, se por um lado isto nos pode
abrir portas para uma existência mais feliz e preenchida também é verdade que
nos pode tornar mais vulneráveis e trazer consigo uma certa sensação de
fragilidade. Quando temos a coragem de nos aventurar dentro de nós mesmos e de
mergulhar nas profundezas da nossa psique nem sempre gostamos daquilo que
encontramos à primeira vista. Pode começar por surgir um sentimento de desorientação:
porque nos deparamos com algo novo, podemos não saber o que fazer com essas
descobertas. Podem também ficar abaladas algumas certezas que julgávamos ter
acerca da vida, de nós mesmos e do mundo e isso pode dar-nos uma sensação de
que estamos perdidos sem saber muito bem o que fazer com esses novos insights
que tivemos e sem uma estrutura que nos permita enquadrá-los.
Podemos também
ficar desiludidos com as descobertas que fazermos acerca de nós mesmos, não
gostando do que encontramos cá dentro quando decidimos olhar para nós
verdadeiramente pela primeira vez. Isto pode trazer consigo um sentimento de
insatisfação, de tristeza ou de zanga.
Por outro
lado, quando praticamos yoga ou meditação podem também surgir sensações
agradáveis que desconhecíamos e que ficamos com vontade de voltar a ter porque
nos mostram que esse vazio que nos trouxe à prática está a ser preenchido e de
que estamos no caminho de algo muito bom e gratificante.
Todas estas
sensações, más ou boas, nos colocam numa certa posição de vulnerabilidade. O
simples facto de nos predispormos a olhar para dentro sem fazer ideia daquilo
que iremos encontrar já nos coloca numa posição um pouco vulnerável. Para olhar
para dentro, verdadeiramente, precisamos de estar disponíveis e abertos para o
que quer que possa surgir. Então torna-se importante que sejamos capazes de
confiar na pessoa que está a dirigir a prática, confiar no seu conhecimento
técnico mas e, acima de tudo, nas suas boas intenções, confiar que não está ali
para nos julgar, avaliar, que não está ali para nos manipular, que está a
dirigir a prática com o nosso bem-estar em mente e não o seu próprio bem. Esta
confiança não significa que precisemos de acreditar que aquela pessoa é, de
algum modo, superior a nós. Não precisamos de acreditar que é mais ou melhor
que nós, precisamos de acreditar simplesmente que aquela pessoa tem algum
conhecimento sobre a prática que está a orientar, sobre os seus efeitos nos
alunos e que tem o nosso bem-estar em mente quando está a dirigi-la.
Efeitos da
prática e relação com o professor que a conduz
Mas, acontece
que quando descobrimos que uma prática de yoga ou de meditação pode ter efeitos
tão profundos sobre nós torna-se muito fácil passarmos a associar esses efeitos
à pessoa que dirige a prática, à pessoa que nos apresentou a essa prática. Por
outro lado, um professor de yoga – dentro da aula – geralmente serve como uma
espécie de modelo de algo que queremos conquistar: se vamos para o yoga à
procura de uma sensação de paz e de bem-estar é muito natural que achemos que
aquele professor tem toda essa paz que procuramos, se vamos à procura de
auto-conhecimento é natural que também pensemos que aquele professor já fez
esse percurso. Há sempre uma tendência do aluno para achar que o professor tem
todas as respostas que este gostaria de obter e que já fez todo o percurso que
este gostaria de fazer.
Até certo
ponto é perfeitamente natural e desejável até que assim seja. Quanto mais
confiarmos na pessoa que está a dirigir a prática mais nos entregamos à prática
e mais benefícios acabamos por obter. Só confiando nas boas intenções da pessoa
que dirige a prática é que podemos abrir-nos totalmente a esta e aos seus
efeitos. Então um professor em quem confiamos é como uma mãe em que o filho
confia para explorar o mundo: quanto mais a criança confia na presença da mãe
mais liberdade tem para explorar o mundo e tudo o que o rodeia. Se confiarmos
no professor podemos abrir-nos mais a nós mesmos para explorar tudo o que for
surgindo cá dentro.
Também pode
ser positivo que o professor sirva como uma fonte de inspiração, como modelo de
alguns comportamentos que gostaríamos de adoptar, como forma de vermos que é
possível viver de modo diferente e relacionarmo-nos com outro modo com o que
nos rodeia. Isto pode ajudar-nos a perceber que é possível mudar certos
comportamentos em nós.
Mas, esta
confiança que deve existir dentro da sala de aula, não significa que devemos
perder a nossa capacidade de ver aquele professor - sobretudo quando está fora
da sala - como apenas um ser humano que está a seguir o seu caminho pessoal,
com todos os defeitos e qualidades que todos nós temos. Não significa que
tenhamos que idealizar a imagem dessa pessoa.
Quando essa
idealização acontece significa que passamos a colocar aquela pessoa num
pedestal e isto, só por si, faz com que ela passe a ter a possibilidade de
exercer algum poder sobre nós, uma vez que passa a ser vista como alguém que
possui um conhecimento superior sobre a vida e sobre o mundo e que, por isso
mesmo, está como que num nível superior de evolução. Nestes casos é necessário
que o professor saiba estabelecer barreiras e que deixe bem definidos os
limites da relação mostrando que está ali para ensinar yoga e não para guiar o
aluno em escolhas ou opções pessoais, nem para orientar a sua vida.
Spiritual
Bypassing – Evitamento espiritual
O que acontece
muitas vezes é que o professor também tem algumas lacunas na sua personalidade
e, de certo modo, sentir-se o guia de alguém ajuda a preenchê-las. Assim, se o
professor resolve embarcar na fantasia do aluno de que sabe mais do ele sobre a
vida e as pessoas ou de que se encontra num outro nível mais elevado estão
criadas as condições para esta deixe de ser uma relação positiva, quer para um
quer para outro.
Isto pode não
trazer consequências graves se o professor não tiver más intenções. Em muitos
destes casos o que acontece é que tanto o aluno como o professor ficam
convencidos que estão a fazer um trabalho muito profundo quando, na verdade
estão a fazer aquilo que a que Robert Augustus, chama Spiritual Bypassing – que
podemos traduzir como evitamento espiritual – nestes casos a prática
espiritual, em vez de nos ajudar a crescer e de proporcionar um verdadeiro
autoconhecimento, serve apenas como uma fuga das emoções difíceis. Muitas
pessoas usam a meditação e o yoga como usariam uma droga: para não terem que
lidar com determinadas partes de si mesmas que de não gostam ou que têm medo de
enfrentar. Nestes casos tanto o professor como aluno embarcam neste evitamento
espiritual que acaba apenas por fortalecer cada vez mais as suas defesas e
tornar cada vez mais difícil um verdadeiro crescimento.
Os líderes
psicopatas
Mas, nos casos
em que o professor não tem a melhor das intenções então podem surgir situações
de grande sofrimento para os alunos envolvidos. É o que acontece nas seitas
que, infelizmente, não são assim tão raras no mundo do yoga. Nestes casos
existe um líder que tem quase sempre algumas características específicas que
podem ser consideradas como traços de um psicopata: a falta de empatia, a falta
de preocupação com os sentimentos dos outros, a motivação para atingir os seus
próprios objectivos que normalmente estão ligados à obtenção de uma posição de
poder, a capacidade de manipular e mentir apenas para satisfazer os seus
interesses, a visão de que as pessoas são simples objectos que podem ser
manipulados e usados para conquistar os seus objectivos e satisfação pessoal.
Quando se
junta uma personalidade deste tipo com alunos que procuram este sentimento de
pertença a um grupo (como quase todos procuramos), com uma prática que
naturalmente derruba fronteiras, que pode criar alguma vulnerabilidade, com os
elementos que já referimos está criada a receita para algumas situações que
podem ser muitos dolorosas para os que se deixam apanhar nelas. Infelizmente
isto não é assim tão raro no mundo do yoga e, em países como os E.U.A até já
deu origem a alguns processos judiciais, em que os alunos procuram que os
líderes os compensem através da justiça por todos os prejuízos que causaram.
Em
Portugal também não são assim tão raros os casos de professores que não têm as
melhores motivações e usam o seu poder sobre os alunos para os manipular e para
atingir os seus objectivos sem qualquer consideração pelos seus sentimentos ou
pelo que será melhor para ele. Infelizmente temos também exemplos no mundo do
yoga de professores que usam a sua influência para se insinuarem sexualmente
junto das suas alunas e/ou para conseguirem que os alunos lhes deêm cada vez
mais dinheiro, influência e poder.
Características das seitas
Existem algumas características
que são comuns a organizações do tipo das seitas:
Existência de uma figura de
liderança inquestionável – este, geralmente é algúem que não se pode questionar
e de quem nem se pode falar a não ser que seja para tecer elogios e louvores mas
que está omnipresente em todas as actividades da escola. Jonathan Haidt explica
que sempre que algo se torna sagrado deixa de ser possível questioná-lo. Isto
acontece em todas as sociedades com determinados aspectos que - normalmente
estão associados a rituais religiosos - que são repetidos pelas pessoas sem que
estas saibam já porque os fazem. O seu carácter sagrado, impede-as de pensar
abertamente e de uma forma racional sobre estes comportamentos que assim são
perpetuados e repetidos sem que ninguém os ponha em causa. O mesmo acontece
neste tipo de escolas ou seitas em que a figura do professor já tem esse
carácter sagrado e por isso este pode ter todo o tipo de comportamento – mesmo
os mais absurdos – sem que os alunos cheguem alguma vez a questionar a sua
pessoa. Estou-me a lembrar do exemplo de um suposto mestre que conheci há uns
anos que - entre muitos outros comportamentos duvidosos e sem escrupúlos que
eram feitos às escondidas – tinha uma dependência conhecida abertamente de
coca-cola, sendo capaz de beber várias latas por dia. Este era um comportamento
conhecido de todos e que não será muito próprio de alguém que pretendia passar
uma imagem de quem se precupava com a sua saúde e dos outros e seria sem dúvida
recriminado se fosse de outra pessoa qualquer: o facto daquela pessoa, naquele
meio, ter este estatuto sagrado fazia com nunca se questionassem os seus
comportamentos por mais absurdos que estes fossem.
Posições hierárquicas bem definidas
– existem normalmente regras rígidas associadas à hierarquia como por exemplo,
o uso de um código de cores que permita distinguir os professores mais antigos
dos mais novos e os professores dos alunos ou a imposição de regras para o
lugar que os alunos ocupam dentro da sala de prática, distinguindo os mais
novos dos mais antigos (ou adiantados como por vezes se chamam). Qualquer
instituição que pretenda ter algum tipo de autoridade sobre os outros precisa
sempre de ter estatutos hierárquicos muito bem definidos para que possa fazer
valer essa autoridade. Este tipo de hierarquia leva as pessoas com o estatuto
mais baixo a ambicionarem estar entre os mais altos e a sentir que precisam de
cumprir as regras do grupo para lá chegarem tornando-as tanto mais submissas
quanto maior for o seu desejo de subir na hierarquia e de agradar ao líder. Por
vezes acontece que esse líder abre excepções na hierarquia para as pessoas que
considera “especiais” e que podem passar a ter um estatuto mais elevado mesmo
sem cumprirem os requisitos iniciais todos. Este jogo de poderes, que nunca é
feito às claras, cria alguma insegurança nos membros do grupo, insegurança essa
que, mais uma vez acaba por levar a um comportamento de maior submissão e a um
forte desejo de agradar ao líder.
Segredos – nestas escolas há
sempre a ideia de que os alunos ou professores de estatuto superior têm
conhecimentos importantes sobre a prática que não podem ser transmitidos a
qualquer pessoa. É também propagada a ideia de que o líder da escola tem um
conhecimento profundo acerca da vida e do universo, que poderá mudar a vida de
quem o partilhar, que só poderá ser divulgado a pessoas da sua mais profunda
confiança. Neste tipo de escola está quase sempre latente a ideia de que o
aluno tem que mostrar ser digno de conhecer esses segredos e o líder tem que
reconhecer que este merece conhecê-los. Isto abre portas a que o aluno – na
esperança de obter respostas de que julga precisar para ser mais feliz e poder
levar uma vida mais realizada – se torne vulnerável a todo o tipo de
manipulação por parte do líder. Em muitos casos isto é usado para conseguir até
estabelecer relações sexuais com as alunas (na maioria dos casos em que isto
acontece são líderes homens que assediam as alunas) usando vários argumentos e
formas de manipulação bem descritas no livro “Sex and the Spiritual Teacher” de
Scott Edelstein.
Crítica às restantes escolas - Neste tipo de escola costuma ser veiculada a
ideia de que todos os outros estão errados ou não sabem nada e de que só aquela
escola é que ensina o verdadeiro yoga. Uma das melhores formas de prender os
alunos a determinada escola é fazê-los acreditar que, saindo dela, nunca mais
vão poder aprender nada que valha realmente a pena porque só ali é que se
encontra o conhecimento verdadeiro. São usadas até à exaustão palavras como:
único, mais completo, primordial, ancestral, excelência, etc. Juntamente com as
críticas que vão sendo veiculadas de forma directa ou indirecta acerca das
outras escolas há também a tendência para exagerar muito (por vezes até ao
ponto do rídiculo) as suas próprias características, como algumas escolas que
dizem ter cursos de formação de 6500 horas de aulas efectivas para formar
instrutores de yoga em 6 anos o que implicaria que os alunos estivessem em formação cerca de 3 horas por dia, todos os dias do ano, quando esses cursos acontecem apenas um dia por mês em 10 ou 11 meses do ano.
A noção de ancestralidade – numa
escola deste género o líder quer ser visto como alguém todo poderoso e único
detentor do conhecimento por isso nunca há uma honestidade acerca das formas
como este foi obtido. É muitas vezes veiculada a ideia de que este é um
conhecimento muito antigo que foi captado de uma forma quase sobrenatural. Esta
ideia faz com os alunos sintam que esse conhecimento é algo de inatingível a
menos que seja transmitido pelo grande líder e, ao mesmo tempo, também ajuda a
cimentar ainda mais o seu carácter sagrado e inquestionável.
Inimigo comum – nestas escolas,
sobretudo nos seus círculos mais internos, é muito comum ser incutida uma
espécie de ódio contra uma ou mais escolas concorrentes. Esta escola muitas
vezes é justamente a escola onde esse líder teve os seus primeiros contactos
com o yoga e onde aprendeu muito daquilo que usa. Uma das melhores formas de
fortalecer o espirito de grupo é a criação de um inimigo comum do qual todos
precisam de se proteger.
Regras rígidas e bem definidas
–não convém que o aluno pense muito por si mesmo e que tenha demasiada
liberdade para questionar o que está estabelecido. Costumam existir muitas
regras em relação a vários aspectos da prática mas também da vida e
comportamento do aluno. Muitas vezes estas regras abrangem até os livros que o
aluno pode ler sendo-lhe dada uma bibliografia da qual não é suposto fugir.
Estas regras podem abranger também as normas de conduta dos membros do grupo entre
si e com o líder e podem até ser feitas insinuações sobre a forma como se deve
comportar com amigos e família mesmo fora da escola. Estas regras, como tudo o
resto, servem para que seja mais fácil controlar os alunos e manter bem
estabelecida a hierarquia.
Elogios e ralhetes desmesurados –
os líderes deste tipo de escola, normalmente, são peritos em manipular as
pessoas e em conhecer os seus pontos fracos. Tentativas de exortação que
alternam por vezes com outras de humilhação em público são muito usadas pelas
seitas, com a desculpa de que a pessoa precisa de aprender a por de lado o seu
ego e são uma forma de manter a pessoa dependente, submissa e a cumprir todas
as regras do grupo.
Implicações de pertencer a uma
seita
Estar numa
escola deste tipo pode trazer alguns benefícios como o conforto de sentir que
estamos integrados num grupo aparentemente unido e com ideais comuns. O
problema é que, quase sempre, chega uma altura em que os prejuízos ultrapassam
os benefícios: normalmente nessas escolas os alunos são encorajados a passar
cada vez menos tempo com a família e os amigos fora do grupo. Porque, quase
sempre, para quem está de fora as coisas são muito mais claras estes também
podem começar a fazer comentários e afirmações acerca da escola ou do seu líder
que os membros da seita levam a mal e que fazem com que sintam incompreendidos
e até rejeitados. Assim, se o aluno passar ainda muito tempo envolvido na seita
começa a ficar cada vez mais afastado do mundo exterior o que, por um lado,
acentua cada vez o seu envolvimento com a seita e faz com que questione cada
vez menos tudo o que se passa lá dentro e, por um outro, com que seja cada vez
mais díficil sair dela. As seitas deste tipo acabam por criar uma dependência
no aluno que sente que, se sair dela, estará sozinho no mundo uma vez que
praticamente cortou os laços com todas as relações que tinha anteriormente.
O sentimento
de família e pertença que se cria em grupos destes é, quase sempre, não muito
verdadeiro porque os membros não podem ter relações verdadeiras de amizade
entre si, o que poria em prática todas as estratégias de manipulação do líder
que, muitas vezes, passam justamente por por uns contra outros para se ter mais
poder sobre cada um individualmente. Como nunca é muito claro de que forma é
que alguns membros conquistaram os privilégios que têm também se gera
facilmente um clima de invejas e de insatisfação entre os membros que querem
sempre fazer parte desse grupo mais pequeno dentro do grupo de priveligiados.
No
ínicio da prática é natural que o aluno se sinta bem com as aulas e goste
daquilo que faz, afinal de contas, como já dissemos, o yoga pode trazer efeitos
de bem-estar muito agradáveis a quem pratica. Mas, a verdade é que, nestas
escolas, normalmente o conhecimento de yoga não é muito porque o seu líder está
mais preocupado em obter benefícios pessoais do que em estudar e porque os
alunos e restantes professores não têm liberdade suficiente para conhecer
outras escolas e nem sequer para ler muitos livros, o conhecimento que têm de
yoga acaba por ser muito limitado. No yoga, como em tudo o resto que se queira
estudar e conhecer, é preciso liberdade para experimentar, para ler, para
procurar, fazer aulas, cursos e workshops com professores diferentes e, se
estes forem também de escolas diferentes tanto melhor porque conhecer
diferentes visões sobre aquilo que se estuda é sempre enriquecedor e
importante. Mas, nestas escolas isso não é possível e, por isso os seus
professores acabam por não ter sequer grande conhecimento daquilo que estão a
ensinar.
Isto
tem duas consequências importantes: por um lado é a saúde dos seus alunos que
muitas vezes é colocada em risco com determinados exercícios que podem não ser
adequados a determinadas condições de saúde. Muitas vezes nestas práticas os
professores querem fazer aulas exigentes do ponto de vista físico, porque
sentem que essa será uma forma de mostrar que sabem mas, como não têm
conhecimentos suficientes para lidar com as fragilidades ou desequilíbrios dos
alunos ou simplesmente porque não compreendem bem o efeito dos exercícios que
estão a pedir-lhes para fazer, acabam por surgir lesões que podem ser mais ou
menos graves e ter algumas consequências nefastas. Por outro lado, esta
limitação também acaba por ser sentida pelos professores mais dedicados que,
naturalmente teriam vontade de estudar e de conhecer mais a fundo aquilo que
ensinam mas sentem que não o podem fazer sem entrar em contradição com a escola
e assim acabam por viver este conflito que não é muito benéfico.
Outro
dos efeitos negativos destas escolas é justamente o de abalar a confiança que a
pessoa tem em si própria: quando alguém está numa destas escolas e passou anos
a dizer a si mesmo que determinados comportamentos (como os abraços excessivos
do líder, ou o facto de passar horas fechado na sua sala com algumas alunas, ou
os elogios excessivos a determinados membros do grupo, ou os preços
escandalosos que cobra pelas suas actividades, ou o carro de corrida topo de
gama escandaloso em que anda todos os dias, etc) são normais e naturais e a
tentar rebater todos os comentários que ouvia de familiares e amigos que
estavam de fora e finalmente percebe que todos tinham razão e que afinal nada
disso era normal a pessoa acaba por passar por uma fase de desilusão, de
humilhação (por não ter visto o que os outros viam) mas também, mais grave de
tudo, de falta de confiança em si mesma: porque durante tantos anos não
acreditou nos seus próprios olhos.
Muitas
pessoas quando percebem que afinal aquela pessoa que idolatravam não é nada do
que pensavam ser acabam por ficar tão desiludidas com o mundo do yoga que nem
sequer conseguem voltar à prática. Ficam desiludidas também consigo mesmas por
terem sido capazes de viver cegas durante tanto tempo. E o processo de saída de
uma escola destas pode ser muito doloroso, sobretudo se a pessoa o fizer
sozinha, sem apoio de ninguém. Algumas pessoas que passaram por isso sozinhas
confidenciaram-me que, durante muito tempo não conseguiam deixar de sentir que
elas é que estavam a fazer algo de errado, tal é a manipulação a que são
sujeitas quando lá estão.
O
envolvimento com este tipo de escola faz sempre com a pessoa passe a estar numa
posição de fragilidade e de vulnerabilidade que, quanto mais o tempo passa,
mais rouba a sua confiança em si mesma, a sua autonomia, a sua capacidade de
fazer escolhas e de levar uma vida verdadeiramente feliz, preenchida e
realizada.
Laura Sanches
Se quiser ler mais sobre este tema recomendo os seguintes
artigos:
E os livros:
Sex and the
Spiritual Teacher – Scott Edelstein
Spiritual
Bypassing: When spirituality disconnects us from what Really Matters – Robert
Augustus Masters
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