segunda-feira, 1 de setembro de 2014
terça-feira, 24 de junho de 2014
A Atenção Plena e as Onze Picadas de Melga
Já aqui falei algumas vezes da forma como o mindfulnes - ou atenção plena - provoca mudanças na nossa forma de nos relacionarmos com o mundo e com a nossa própria experiência.
Acontece que, por vezes, essas mudanças acontecem de forma tão gradual e tão subtil que acabamos por nem nos dar conta de que aconteceram e só nos damos conta disto quando somos confrontados com algum acontecimento extremo e percebemos que estamos a reagir de um modo diferente daquele que nos era habitual.
Há uns dias tive um exemplo deste tipo de mudanças e da forma como a meditação modifica o nosso relacionamento com a nossa própria experiência e, neste caso, não precisei de nenhum acontecimento muito extremo para o compreender. Não costumo ser muito incomodada pelas melgas ou mosquitos mas, recentemente - vá-se lá saber porquê - houve uma melga que, ou estava muito desesperada, ou desenvolveu alguma paixão assolapada por mim e resolveu fazer um banquete com as minhas pernas. Então, de repente, quando me dei conta já tinha onze picadas de melga, todas bem vermelhas e grandes e quase todas na zona da barriga da perna esquerda. Escusado será dizer que a comichão era mais que muita, até porque a única coisa que tinha para aplicar era uma pomada de calêndula que já estava fora de prazo e - provavelmente por causa disso - não me aliviou grande coisa.
A única vez em que me lembrava de ter ficado neste estado foi quando estive na Índia, porque quando lá estive apanhei a altura das monções e - por mais repelente que esfregasse no corpo- a zona do pés e das pernas acabava sempre por ser lavada com a água e, por isso, estava constantemente a ser mordida nessas zonas. O facto de estar lá a fazer um curso de Yoga também não ajudou muito visto que passava uma boa parte do dia de olhos fechados e a tentar concentrar-me, logo, provavelmente era uma presa mais fácil para os ataques das melgas do que se estivesse atenta e a tentar enxotá-las.
Mas, o que me marcou neste episódio recente foi a grande diferença com que lidei com as picadas desta vez: nessa altura, há uns oito anos, coçava-me de forma incontrolável, até ao ponto de fazer ferida e, na verdade, quanto mais coçava mais incomodada ficava. Cheguei até a esfregar um creme preto nas pernas que me garantiram que era tiro e queda mas que, além de me deixar as pernas todas pretas e engorduradas de tal forma que nem com a água as conseguia lavar, não teve grande efeito: a comichão continuava e as picadelas constantes também. Mais uma vez, o facto de estar a fazer o tal curso de yoga não ajudou muito, porque cada vez que tentava concentrar-me achava que tinha de eliminar a sensação de comichão da minha mente e ficava numa luta inglória em que as picadas até pareciam aumentar em número e em tamanho.
Mas, desta vez, simplesmente dei-me conta de que podia observar essas picadas com todo o incómodo que causavam, e o impulso de coçar praticamente nem chegou a surgir. Foi como se este impulso ainda estivesse presente, em alguma parte da minha cabeça, mas já não era suficientemente forte para o levar a cabo. E dei-me conta também de que isto não tinha nada a ver com força de vontade porque nestes casos, como em tantos outros, ela não é suficiente para inibir esse impulso. Dessa outra vez, por mais que pensasse que não queria coçar-me - porque ficar com as pernas todas em ferida também não era propriamente a melhor solução para o problema - por mais que tentasse conter e lutar com esse impulso, ele acabava sempre por levar a melhor.
Desta vez foi muito diferente porque simplesmente não houve luta, não houve resistência, foi como se houvesse uma parte de mim que tinha aprendido que esse coçar era apenas fruto da ignorância e que, mesmo parecendo capaz de provocar um alívio temporário, só acabaria por provocar ainda mais sofrimento. Mas esta aprendizagem não era nada de racional, não era algo que surgisse porque tinha pensado ou reflectido sobre o assunto. Das outras vezes em que me coçava também sabia perfeitamente, tão bem como hoje, que coçar-me até fazer feridas só ia piorar as coisas e não resolvia nada, até porque a cada dia apareciam mais mosquitos e mais picadas. Mas, desta vez era uma espécie de saber mais interno, mais profundo. Juntamente com essa nova consciência tomei também contacto com uma parte de mim que sentia mesmo relutância em embarcar nesse tipo de comportamento. Como se o impulso de me começar fosse logo derrotado à partida por essa parte que sabia que ele não levaria a nada a não ser a um novo sofrimento.
Mas, o que me marcou neste episódio recente foi a grande diferença com que lidei com as picadas desta vez: nessa altura, há uns oito anos, coçava-me de forma incontrolável, até ao ponto de fazer ferida e, na verdade, quanto mais coçava mais incomodada ficava. Cheguei até a esfregar um creme preto nas pernas que me garantiram que era tiro e queda mas que, além de me deixar as pernas todas pretas e engorduradas de tal forma que nem com a água as conseguia lavar, não teve grande efeito: a comichão continuava e as picadelas constantes também. Mais uma vez, o facto de estar a fazer o tal curso de yoga não ajudou muito, porque cada vez que tentava concentrar-me achava que tinha de eliminar a sensação de comichão da minha mente e ficava numa luta inglória em que as picadas até pareciam aumentar em número e em tamanho.Mas, desta vez, simplesmente dei-me conta de que podia observar essas picadas com todo o incómodo que causavam, e o impulso de coçar praticamente nem chegou a surgir. Foi como se este impulso ainda estivesse presente, em alguma parte da minha cabeça, mas já não era suficientemente forte para o levar a cabo. E dei-me conta também de que isto não tinha nada a ver com força de vontade porque nestes casos, como em tantos outros, ela não é suficiente para inibir esse impulso. Dessa outra vez, por mais que pensasse que não queria coçar-me - porque ficar com as pernas todas em ferida também não era propriamente a melhor solução para o problema - por mais que tentasse conter e lutar com esse impulso, ele acabava sempre por levar a melhor.
Desta vez foi muito diferente porque simplesmente não houve luta, não houve resistência, foi como se houvesse uma parte de mim que tinha aprendido que esse coçar era apenas fruto da ignorância e que, mesmo parecendo capaz de provocar um alívio temporário, só acabaria por provocar ainda mais sofrimento. Mas esta aprendizagem não era nada de racional, não era algo que surgisse porque tinha pensado ou reflectido sobre o assunto. Das outras vezes em que me coçava também sabia perfeitamente, tão bem como hoje, que coçar-me até fazer feridas só ia piorar as coisas e não resolvia nada, até porque a cada dia apareciam mais mosquitos e mais picadas. Mas, desta vez era uma espécie de saber mais interno, mais profundo. Juntamente com essa nova consciência tomei também contacto com uma parte de mim que sentia mesmo relutância em embarcar nesse tipo de comportamento. Como se o impulso de me começar fosse logo derrotado à partida por essa parte que sabia que ele não levaria a nada a não ser a um novo sofrimento.
Desta vez houve alturas em que me dei conta de que ainda lutava com a comichão, quando o meu diálogo interno me dizia que já não podia aguentar mais e que ela tinha de desaparecer e, nessas alturas, quase sentia vontade de coçar e as sensações ficavam ainda mais fortes e difíceis de aguentar. Mas, a maior parte do tempo, percebi que podia simplesmente observar. E ela estava sempre presente, quando falava com as pessoas, quando escrevia no computador, quando andava na rua, etc, não desaparecia embora houvesse alturas em que, naturalmente, a minha atenção ficava tão absorvida por outras coisas que me esquecia que estava presente. Mas, sempre que não estava totalmente envolvida no que fazia, lá voltava a comichão, a diferença é que, quando eu não lutava com ela, voltava apenas em pano de fundo, não tomava totalmente conta de mim ou da minha atenção ou consciência. Voltava de uma forma que me permitia aceitá-la, lidar com ela sem entrar em lutas ou sem me deixar levar demasiado pelos meus comentários e julgamentos acerca dela.
Então com estas simples picadas de melga aprendi que o mindfulness ou a atenção plena mudou realmente a minha forma de me relacionar com a experiência e com aquilo que acontece. E, aprendi também que, tal como acontece com tantas outras coisas, as picadas de melga passam muito mais depressa quando não as coçamos ao ponto de fazer ferida.
Escolhi partilhar este episódio porque me pareceu um bom exemplo para a forma o mindfulness opera mudanças na nossa consciência. Neste caso foram apenas picadas de melga mas podiam ter sido muitas outras coisas. As picadas de melga aqui representam todos os incómodos, dores e desafios com que nos confrontamos nas nossas vidas. E, quando estamos no meio deles, muitas vezes, sabemos exactamente qual seria a opção correcta a tomar ou aquilo que não devemos fazer. Tal como eu sabia que não me deveria coçar. Mas, os nossos impulsos, os nossos condicionamentos, são mais fortes e acabam por levar a melhor porque não conseguimos vencê-los com pensamentos racionais e com intelectualizações sobre aquilo que se está a passar. Com a prática de mindfulness podemos encontrar dentro de nós um outro espaço para observar a experiência e, a partir deste espaço seguro, encontramos muito mais possibilidades para lidarmos com tudo o que nos acontece. E, quando não temos outro remédio se não deixar passar, é também a partir deste espaço seguro que podemos observar e acolher cada instante da nossa experiência.
E a partir deste espaço seguro podemos perceber que, se partirmos de uma atitude de aceitação para com a nossa experiência em vez de entrarmos em luta com ela, podemos encontrar formas de responder à situação em vez de nos limitarmos a reagir. Neste caso quando me coçava estava apenas a reagir à comichão e, à custa de querer que ela desaparecesse rapidamente, só acabava por provocar mais sofrimento. Mas, quando somos capazes de observar e de aceitar as nossas experiências, acolhendo-as como parte integrante da nossa vida naquele momento, podemos deixar de lado as reacções e ganhamos espaço para sermos capazes de responder de forma liberta de condicionamentos e de impulsos que só trazem mais sofrimento.
Neste caso não havia assim tantas formas de responder a esta situação. Poderia ter comprado qualquer coisa na farmácia para aplicar mas escolhi não o fazer porque não gosto de recorrer a medicamentos que não sejam mesmo necessários. Também poderia ter comprado mais pomada de calêndula mas não havia nenhum sítio perto de mim que a vendesse e, por isso, também escolhi não o fazer. O mindfulness e o facto de não estarmos tão presos aos impulsos também nos permite ser mais criativos e encontrar soluções que não seriam exactamente as esperadas. Então, neste caso, descobri que usando um pouco de óleo de coco a comichão ficava um bocado mais discreta. Mas o importante é que, o facto de ser capaz de observar esta parte da minha experiência me permitiu ter consciência destas possibilidades todas e saber que tinha toda a liberdade de escolher o que me parecesse mais adequado para lidar com ela. E, desta vez, o que me pareceu mais adequado, para além de ir usando o óleo de coco, foi mesmo pegar neste incómodo e encará-lo como um bom treino de mindfulness e uma boa experiência de aprendizagem sobre os seus efeitos.
E a partir deste espaço seguro podemos perceber que, se partirmos de uma atitude de aceitação para com a nossa experiência em vez de entrarmos em luta com ela, podemos encontrar formas de responder à situação em vez de nos limitarmos a reagir. Neste caso quando me coçava estava apenas a reagir à comichão e, à custa de querer que ela desaparecesse rapidamente, só acabava por provocar mais sofrimento. Mas, quando somos capazes de observar e de aceitar as nossas experiências, acolhendo-as como parte integrante da nossa vida naquele momento, podemos deixar de lado as reacções e ganhamos espaço para sermos capazes de responder de forma liberta de condicionamentos e de impulsos que só trazem mais sofrimento.
Neste caso não havia assim tantas formas de responder a esta situação. Poderia ter comprado qualquer coisa na farmácia para aplicar mas escolhi não o fazer porque não gosto de recorrer a medicamentos que não sejam mesmo necessários. Também poderia ter comprado mais pomada de calêndula mas não havia nenhum sítio perto de mim que a vendesse e, por isso, também escolhi não o fazer. O mindfulness e o facto de não estarmos tão presos aos impulsos também nos permite ser mais criativos e encontrar soluções que não seriam exactamente as esperadas. Então, neste caso, descobri que usando um pouco de óleo de coco a comichão ficava um bocado mais discreta. Mas o importante é que, o facto de ser capaz de observar esta parte da minha experiência me permitiu ter consciência destas possibilidades todas e saber que tinha toda a liberdade de escolher o que me parecesse mais adequado para lidar com ela. E, desta vez, o que me pareceu mais adequado, para além de ir usando o óleo de coco, foi mesmo pegar neste incómodo e encará-lo como um bom treino de mindfulness e uma boa experiência de aprendizagem sobre os seus efeitos.
segunda-feira, 17 de março de 2014
Yoga como Terapia para a Ansiedade
O
Yoga pode ser uma excelente forma de combater a ansiedade, uma perturbação cada
vez mais comuns nos nossos dias. No entanto, as aulas de grupo, podem nem
sempre ser as mais indicadas para o fazer.
Ansiedade e aulas de Yoga
Muitas
pessoas que procuram o yoga para lidar com a ansiedade, quando tentam praticar
em grupo, sentem que ficam ainda mais ansiosas. Isto pode acontecer por vários
motivos: por um lado porque a pessoa ansiosa tem tendência para ficar demasiado
presa aos seus pensamentos, receios e julgamentos o que significa que poderá
ter alguma dificuldade em relaxar na aula e deixar-se levar, por ficar com medo
do julgamento dos outros. O facto das aulas, muitas vezes, se fazerem com os
olhos fechados também pode ser difícil porque, por um lado, para estar de olhos
fechados é preciso confiar – coisa que não é muito natural para uma pessoa
ansiosa – por outro, ao mantê-los abertos, vendo todos os outros de olhos
fechados, a pessoa sente logo que está a falhar mesmo numa coisa que parece ser
tão simples. A maior parte das pessoas ansiosas também tem tendência para olhar
à volta e imaginar que todos os outros estão perfeitamente relaxados e que
parecem capazes de fazer imensas coisas que a pessoa não é capaz de fazer e
sentem-se deslocadas e incapazes de descontrair, imaginando que todos estão a
reparar que ela está ali como um peixe fora de água. Se as aulas incluirem
posições difíceis ou exigentes e a pessoa estiver
pouco preparada para isso ainda mais difícil será sentir que todos são capazes
de fazer coisas que ela não consegue e que não deveria estar ali. Se o
professor não fizer questão de salientar que no yoga não há metas, nem
objectivos a atingir e que o corpo é apenas uma ferramenta para chegarmos a
outras partes de nós, então é muito provável que a pessoa ansiosa aborde a
prática da mesma forma que costuma abordar tudo o resto na sua vida: como uma
ferramenta para chegar a um determinado objectivo, neste caso o de se livrar da
ansiedade. E rapidamente começa a sentir que está a falhar nesse objectivo – ao
contrário de todos os outros que lhe parecem irritantemente concentrados e
relaxados ao mesmo tempo que passam com toda a delicadeza, flexibilidade e
destreza de uma posição para a outra. E se o professor não está atento a esta
tendência que as pessoas ansiosas tipicamente têm para atingir objectivos e
para, pelo caminho, irem fazendo comparações e julgamentos, e procura
incentivar os alunos a conseguirem a posição “perfeita” ou a chegarem um pouco
mais longe, ou a relaxarem enquanto põem os pés atrás da cabeça ou se viram de
pernas para o ar, é uma receita mais que certa para que uma pessoa ansiosa
comece a sentir-se ainda mais agitada.
Por
outro lado, muitas vezes nestes quadros, também surge aquilo que se chama
ansiedade provocada pelo relaxamento. Isto acontece quando a pessoa tenta
relaxar e acaba por ficar ainda mais ansiosa e é relativamente frequente em
casos de pessoas que vivem debaixo de um stress crónico e que procuram o yoga
ou a meditação para relaxar. Se o professor não estiver consciente desta
tendência comum é muito natural que a desvalorize ou que diga à pessoa que ela
irá passar ou que simplesmente tem de se esforçar mais para a próxima. Mas, na
verdade, nestes casos, o mais comum é a pessoa fugir o mais depressa possível
da aula sem dizer nada ao professor e nunca mais voltar. Porque nestes casos a
pessoa sente que falhou ou que simplesmente aquela prática não é para si. E
quando se pensava que poderia estar ali a solução para um problema que incomoda
tanto e há tantos anos isto pode ser tão frustrante que a pessoa nem quer falar
disso. Ou porque ficou tão assustada que também não lhe apetece falar sobre o
assunto, principalmente quando nem conhece o professor. Nestes casos este aumento
da intensidade da ansiedade que pode acontecer quando a pessoa começa a tentar
relaxar também pode ter várias causas: por um lado pode ser simplesmente o
facto da pessoa voltar toda a atenção para si que a faz tomar consciência de
algo que sempre esteve presente mas que do qual não se dava conta. Por outro
lado pode haver realmente um aumento da ansiedade provocado pelo facto da
pessoa estar a tentar relaxar. Relaxar significa baixarmos as nossas
defesas e, porque a ansiedade é uma protecção, é como se estivéssemos a viver
permamentemente num sistema de alerta e, quando tentamos relaxar, o sistema
dispara dizendo-nos que não é seguro fazê-lo. Além disso, o relaxamento é um
estado totalmente novo para quem vive constantemente em tensão e, quando a
pessoa, de repente, se sente a relaxar um pouco pode surgir também uma sensação
de que se está a perder o controlo, algo que uma pessoa ansiosa procura evitar
a todo o custo.
Este aumento
da ansiedade também pode vir da luta interna que gerámos ao tentar impor o
relaxamento: quando tentamos controlar um processo que não é controlável, um
processo que podemos apenas permitir que aconteça, gera-se uma tensão tremenda
por não nos sentirmos capazes de impor a nossa vontade e de atingir o tão
esperado objectivo – o relaxamento profundo. O facto deste processo ser algo que não é possível controlar de um ponto de vista racional também pode ser algo que assusta: assim que a pessoa começa a sentir-se relaxar mais um pouco, é como se o seu lado racional sentisse que está a perder o controlo (e, de certo modo, está) e isto pode ser também bastante assustador.
Ansiedade e Yoga Terapia
Se o professor não for capaz de enquadrar estas vivências da pessoa e de lhes dar algum significado é muito provável que a pessoa sinta que praticar yoga não é algo que esteja ao seu alcance ou que seja benéfico para si e que simplesmente desista da prática.
Então,
numa sessão de yoga como terapia, feita como um profissional que possua algum conhecimento destes mecanismo há muito mais espaço para integrar e gerir tudo isto.
Primeiro, porque as sessões são sempre individuais, a prática pode ser muito mais
adaptada às capacidades da pessoa e também desaparece aquela sensação de
que todos conseguem fazer tudo melhor do que nós. Depois, nestes
casos, torna-se muito importante haver também um espaço para falar das
sensações, para as clarificar, para que deixem de se tornar algo tão assustador
que só queremos fugir delas e numa sessão individual, em que se construiu já algum tipo de aproximação com o professor, é muito mais fácil fazê-lo. O facto de não haver mais alunos também significa que a pessoa sente que pode interromper a prática a qualquer momento sem incomodar ninguém, se as sensações se tornarem demasiado intensas. E isto, só por si, também pode ser um importante contributo para uma maior sensação de segurança e conforto.
Nestas sessões é importante também que a pessoa
tenha um espaço para perceber como tudo funciona, para perceber que é
contra-producente lutar contra os seus próprios sentimentos ou para tentar
fugir deles. É importante que a pessoa tenha espaço também para ir
experimentando abdicar desse controlo constante em que julga que precisa de
viver para que, aos poucos, se permita ir relaxando sem medos. Para isto é
muito importante que a pessoa aprenda a confiar no terapeuta que dirige a
prática e que este tenha conhecimento dos mecanismos da ansiedade para que possa ajudar a dar algum significado às vivências do praticante.
Outro
aspecto que difere das aulas de grupo é o facto de, num trabalho que usa o yoga
como terapia, ser fundamental que a pessoa aprenda a desenvolver uma rotina de
prática em casa, para que os efeitos se façam sentir, e que aprenda também a
aplicar os conhecimentos e as vivências que vai obtendo com a prática no seu
dia-a-dia. O papel do yoga terapeuta aqui é o de facilitar a integração dessas
vivências na rotina diária da pessoa e de a orientar na forma como pode
estender essa aprendizagem às várias experiências que vai vivendo.
No
caso de pessoas que sofrem com a ansiedade também pode ser muito útil conjugar
a prática com algum tipo de aconselhamento psicológico que ajude a pessoa a
lidar melhor com a sua ansiedade. Se estas sessões de yoga como terapia forem
conduzidas por um psicólogo, como acontece no Espaço Vida, então as duas coisas
poderão ser facilmente integradas.
Aceitar a Ansiedade
Ao
procurar o yoga como terapia para a ansiedade é essencial que a pessoa saiba
que se torna a responsável pelo seu próprio processo de cura mas que, ao mesmo
tempo, essa cura não passa por lutar com a sua condição. O primeiro passo
fundamental que precisamos de dar para nos libertarmos da ansiedade é a
aceitação dessa mesma ansiedade. Isto pode parecer paradoxal mas a verdade é
que a única forma de nos libertarmos de vez de uma ansiedade crónica começa com
a aceitação da mesma. Porque aceitar essa ansiedade significa que nos estamos a
aceitar a nós mesmos e, sem essa aceitação profunda e verdadeira, nada mais
pode ser realmente eficaz. A ansiedade existe muito provavelmente porque não
encontrámos essa aceitação incondicional – pelo menos não tanto como
precisávamos - nos primeiros anos das nossas vidas, numa altura em que esta era
essencial para crescermos com a segurança e a tranquilidade de saber quem
somos. As crianças criam uma imagem de si de acordo com o que vêem nos olhos
dos seus pais e um adulto ansioso é alguém que não teve um bom espelho enquanto era criança. As pessoas mais ansiosas mais do que aprenderem a ver-se a si mesmas nos olhos dos seus pais, é provável que tenham aprendido antes a ver aquilo que precisavam de
atingir, o que deveriam fazer, o objectivos que precisavam de cumprir. Por
outro lado, uma pessoa ansiosa é também uma pessoa que sente que precisa de se
proteger o tempo todo, porque algo de mau pode vir a acontecer, então isto
significa que faltou também um sentimento de verdadeira protecção na infância
provavelmente porque os pais não estiveram tão presentes quanto a criança
precisava, não por falta de amor, mas porque provavelmente também eles sofriam
de alguma ansiedade, preocupações ou tristezas e era isto que a criança via
reflectido nos seus olhos, em vez de se ver a si mesma. As crianças quando
nascem, e durante os primeiros anos de vida, precisam de uma aceitação incondicional e de
uma presença quase total por parte dos pais e, se não as encontram, é muito provável que cresçam com um
certo sentimento de insegurança e de que há algumas partes de si que não são
dignas de amor. E isto acaba por levar a um estado de ansiedade mais ou menos constante.
Laura Sanches
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
Seitas no Mundo do Yoga - Palestra no Lisbon Yoga Festival
Estes são os vídeos da palestra apresentada em Fevereiro, no Lisbon Yoga Festival, sobre Seitas no Mundo do Yoga. Um reflexão sobre o que nos leva a entrar neste tipo de escola, sobre as suas principais características e os prejuízos que podem causar.
Primeira parte da Palestra
Segunda parte da Palestra
E aqui fica também um link para os slides que foram sendo apresentados ao longo da palestra e que não foi possível enquadrar bem na filmagem.
Slides da Palestra
Primeira parte da Palestra
Segunda parte da Palestra
E aqui fica também um link para os slides que foram sendo apresentados ao longo da palestra e que não foi possível enquadrar bem na filmagem.
Slides da Palestra
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
Abraçar os nossos Limites
Nas minhas
aulas de Yoga digo muitas vezes aos alunos para estarem atentos aos sinais
do seu corpo e respeitarem os seus limites e, há dias, tomei consciência de que
esta referência aos limites é, quase sempre, encarada de uma forma negativa na
maior parte dos contextos. Não gostamos muito que nos lembrem que temos limites
e, muitas vezes nas aulas de Yoga, é incentivada a ideia de que podemos sempre
ultrapassar os nossos limites levando o corpo a fazer coisas que nunca
imaginámos serem possíveis. É verdade que à medida que vamos praticando com
regularidade vamos ficando mais em forma e - partindo do princípio que temos
uma prática equilibrada - vamos ganhando mais flexibilidade e força que nos
permitem ir mais longe do que quando começámos. Mas também é verdade que, por
muito que fiquemos em forma, existem sempre limites que nunca poderemos
ultrapassar. Paul Grilley chama a atenção para o facto de existirem no nosso
corpo os chamados pontos de compressão que nos impedem de fazer certas posições
por mais que nos esforçemos. Estes pontos de compressão são diferentes para
todas as pessoas, para ter uma ideia do que estes implicam, pode experimentar
pôr-se na posição de cocóras com os pés unidos e verificar se consegue colocar
toda a planta do pé no chão ou apenas a parte da frente. São justamente os
pontos de compressão - da articulação do tornozelo, neste caso – que permitem
ou impedem o pé de ficar totalmente em contacto com o chão. Nesta posição o
facto de sermos capazes de colocar a planta do pé totalmente no chão, não
depende tanto da flexibilidade como dos tais pontos de compressão que são zonas
onde os ossos da articulação se tocam impedindo que haja uma maior amplitude de
movimentos. Isto quer dizer que até podemos melhorar um pouco a flexibilidade dos músculos envolvidos na posição, mas nunca passaremos dos limites que nos são permitidos pelos nossos pontos de compressão. No ballet, por exemplo, quando as crianças começam a dançar os professores, ao fim de pouco tempo, são capazes de distinguir aquelas que podem continuar e investir num percurso profissional daquelas que têm um tipo de corpo que nunca lhes permitirá ser bailarinos profissionais. Uma criança que faça ballet a sério há algum tempo e que não consiga fazer a espargata, por exemplo, é posta de parte porque se sabe que, por muito que trabalhe, nunca virá a ser capaz de a fazer.
movimentos. Isto quer dizer que até podemos melhorar um pouco a flexibilidade dos músculos envolvidos na posição, mas nunca passaremos dos limites que nos são permitidos pelos nossos pontos de compressão. No ballet, por exemplo, quando as crianças começam a dançar os professores, ao fim de pouco tempo, são capazes de distinguir aquelas que podem continuar e investir num percurso profissional daquelas que têm um tipo de corpo que nunca lhes permitirá ser bailarinos profissionais. Uma criança que faça ballet a sério há algum tempo e que não consiga fazer a espargata, por exemplo, é posta de parte porque se sabe que, por muito que trabalhe, nunca virá a ser capaz de a fazer.
Para além
destes pontos de compressão, existem outros limites naturais para o nosso corpo
em função do tipo de vida que levamos, da idade, da saúde, do género, etc.
Então porque é
que temos tanta dificuldade em aceitar que o nosso corpo tem limites? E porque
é que estes têm tendência para ser vistos como algo de negativo?
E, do ponto de
vista da saúde psicológica, é importante também sermos capazes de aprender a
deixar de lado as metas, os objectivos que estamos tão habituados a impor a
nós mesmos no dia-a-dia. É importante sermos capazes de deixar fora da sala a
atitude de ginásio, de quem quer ir sempre mais longe, de quem quer fazer
melhor porque, se procuramos o Yoga como uma prática que nos ajude a crescer, a
ser mais felizes e a relaxar verdadeiramente então é fundamental que a usemos
para aprender a aceitar: a aceitar o nosso corpo tal como ele é, não como
gostaríamos que fosse. Aceitar os nossos limites e abraçá-los como algo de
precioso que nos pode ensinar a estar presentes de outro modo, que nos pode
ensinar a conhecermo-nos de forma mais profunda e completa. E abraçar os nossos
limites como uma parte integrante de quem somos e de onde estamos,
agradecendo-lhes por essa informação preciosa que nos dão se estivermos
dispostos a ouvi-la. Só através dessa aceitação é que um dia poderemos
verdadeiramente transcender os nossos limites, não de um ponto de vista físico
(porque o nosso corpo estará para sempre sujeito às leis da física) mas de
um ponto de vista mental ou espiritual que é o que verdadeiramente conta.
Laura Sanches
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
Mindfulness e Ansiedade - Viver com Atenção Plena as nossas dores
Há muito tempo
que a meditação tem sido reconhecida pela ciência como uma prática com um
efeito importante e eficaz para baixar e
controlar os níveis de ansiedade e para contrabalançar os efeitos
negativos do stress nas nossas vidas. Existem vários tipos de práticas de
meditação diferentes, em várias tradições diferentes pelo mundo fora mas, desde
há algum tempo que as investigações científicas se têm concentrado
principalmente num tipo específico de meditação, a meditação do tipo
Mindfulness, ou meditação da Atenção Plena, em português.
Esta prática
tem as suas raízes na tradição budista e um dos primeiros responsáveis pela
introdução do termo no ocidente foi Tich Nhat Hanh, um monge vietnamita, de
quem Kabat-Zinn foi aluno. Na tradição budista esta é uma prática considerada
essencial para a libertação do sofrimento que, na verdade, é a meta de todas as
tradições espirituais.
A psicologia budista ensina-nos que podemos distinguir a
dor do sofrimento: a dor é o evento primário, é o algo que acontece, que faz
parte da vida e que é inevitável: enquanto tivermos um corpo podemos sempre
magoar-nos, ficar doentes, envelhecer, etc; o sofrimento é uma camada extra que
acrescentamos às nossas dores e que pode ser evitado se aprendermos como
fazê-lo. Para percebermos melhor isto pensemos no
seguinte exemplo: estamos na nossa cama e acordamos a meio da noite com vontade
de ir à casa de banho, saimos da cama, ainda ensonados, e seguimos pela casa
fora em direccção à dita cuja. A meio do caminho batemos com o dedo do pé na
esquina de uma mesa e sentimos aquela dor forte que não podemos evitar porque o
dedo ficou mesmo magoado. Este é o evento primário, a tal dor que já está presente,
que existe e que não pode ser evitada. A seguir o que acontece, de forma
automática, é que gera a tal segunda camada, a camada de sofrimento, que pode ser
voltada para dentro quando pensamos “porque
raio é que não acendi a luz?! Porque é que não calcei o raio das chinelas?!”
ou pode ser voltada para fora quando começamos a culpar os outros pelo que
aconteceu com pensamentos do género “Quem é
que tirou esta mesa do sítio?! Porque é que o meu marido tinha de comprar esta
mesa que eu nunca quis aqui e está-se mesmo a ver que só estorva?!” Quando
surgem este tipo de pensamentos o que estamos a fazer é a alimentar o nosso
sofrimento à volta daquela dor e a torná-la ainda mais intensa. Estes pensamos
criam uma tensão à volta daquela dor porque estamos a tentar evitá-la, são
pensamos que reforçam uma atitude que nos diz que não gostamos daquela sensação
e que queremos evitá-la, eliminá-la o mais depressa possível. Acontece que a
dor é um sinal natural do nosso corpo que tem um propósito importante. A dor
serve para nos avisar de que qualquer coisa está a acontecer no nosso corpo e
precisamos de lhe dar atenção. Neste caso sabemos o que aconteceu, batemos com
o dedo na perna da mesa, mas mesmo assim este mecanismo tem um propósito
importante: se o dedo estiver partido, por exemplo, a dor torna-se ainda mais
intensa para nos impedir de andar, protegendo-nos de um dano ainda maior que
poderia acontecer se a ignorássemos e fizéssemos algum tipo de esforço. Então,
como estamos a tentar ignorar aquela mensagem do corpo, ele não em outro remédio
se não tentar torná-la ainda mais intensa. Por outro lado, este tipo de
pensamentos também criam alguma tensão. Se tomarmos consciência da forma como
os proferimos, mesmo em silêncio, podemos facilmente verificar que há uma tendência
para contrair os maximlares, os ombros, para cerrar os punhos, sinais de tensão
corporal. E, essa tensão, por sua vez, também acaba por contribuir ainda mais
para o mal-estar que a dor inicial já provocou.
Com o
mindfulness aprendemos que podemos observar simplesmente aquela dor, podemos
deixar que esteja presente naquele instante, podemos aceitá-la como uma parte
integrante da nossa experiência no momento presente. Com o mindfulness
percebemos que é natural que esses pensamentos automáticos surjam mas que não
precisamos de os alimentar e percebemos que, quando deixamos de lutar com as
nossas dores, eliminamos o sofrimento que estamos habituados a criar à volta
delas.
Por isso
existem muitos estudos que mostram que o Mindfulness é muito eficaz para lidar
com os casos de dor crónica, com investigações que demonstram que esta prática
pode baixar os níveis de dor ao mesmo tempo que também ensina uma melhor forma
de lidar com a dor que ainda resta.
Isto também é
válido para as dores da mente, as dores mais emocionais que, na verdade, de um
ponto de vista psicofisiológico são tão reais como as físicas. Os nossos
pensamentos e as nossas emoções, ou a forma como lidamos com estes, por vezes
também nos causam um sofrimento tão intenso como as pancadas ou as quedas que
vamos dando pela vida. O sofrimento psicológico vem, quase sempre, dos
pensamentos ou emoções que tentamos evitar. Ao longo da nossa vida vamos
aprendendo que há certas emoções que são avaliadas, por nós, como sendo
desagradáveis ou insuportáveis e vamos acreditando que a única forma de lidar
com elas passar por tentarmos eliminá-las ou ignorá-las o mais possível. Mas,
na verdade esta luta, além de provocar ainda mais tensão, sofrimento e um
enorme desgaste, só acaba por fortalecer ainda mais estes pensamentos e estas
emoções.
Para comprovar
isto pode experimentar fazer o seguinte exercício: páre de ler este artigo e, durante
os próximos três minutos, tente não pensar num urso branco, pode usar as
estratégias que quiser, a única tarefa dos próximos três minutos é não pensar
num urso branco.
Este
investigador fazia experiências em que o tempo era dividido em duas metades e
criou dois grupos diferentes em que os procedimentos na primeira metade da
experiência eram diferentes: a um dos grupos era pedido que não pensassem num
grupo branco e ao outro grupo pedia-se justamente o oposto, que pensassem num
grupo branco durante 5 minutos. Durante esse tempo pedia-se às pessoas dos dois
grupos que fossem verbalizando os seus pensamentos e que tocassem uma campainha
sempre que surgisse um pensamento do urso. Na segunda parte da experiência era
pedido aos participantes dos dois grupos que pensassem num urso branco e
continuassem a tocar a campainha sempre que o fizessem. O que se verificou foi
que as pessoas do primeiro grupo, a quem era pedido que suprimissem os
pensamentos acerca do urso branco eram sempre aquelas que, na segunda parte,
tocavam mais vezes a campainha. Jonathan Haidt explica que podemos dividir os
nossos pensamentos em pensamentos automáticos e pensamentos controlados. Quando
estamos aprender a tocar um instrumento, por exemplo, ou a conduzir, precisamos
de usar os pensamentos controlados que vão guiando as nossas acções e que, de
tempos a tempos, precisam de confirmar se estão a fazer o que é certo. Ou seja,
quando estamos a aprender uma determinada tarefa sabemos qual é o desempenho a
que queremos chegar e, por isso, com alguma regularidade os nossos processos de
pensamento vão comparando o nosso desempenho com esse ideal para fazer os
ajustes que forem necessários. Quando já dominamos essa tarefa a comparação
deixa de ser necessária e por isso esta pode passar a ser orientada pelos
processos de pensamento automáticos que já não nos exigem estar tão atentos ao
que estamos a fazer. Então, Haidt (2007) explica que, o que se passa quando
estamos a tentar suprimir um pensamento é que estamos a estabelecer um
objectivo, logo precisamos de usar os pensamentos controlados para saber se
estamos ou não a aproximar-nos desse objectivo.
Neste caso, como sempre que se persegue um
objectivo, uma parte da mente automaticamente vai monitorizando o nosso progresso
para sabermos se já o atingimos ou se nos estamos a aproximar desse objectivo.
Diz Haidt que, se esse objectivo for uma acção no mundo exterior, como aprender
um instrumento, por exemplo, isto funciona bem. Mas, o acto de monitorizarmos a
ausência de um pensamento introduz esse mesmo pensamento: temos que nos
perguntar “já não estou a pensar num urso
branco?” com alguma regularidade, para saber se de facto não estamos a
pensar num urso branco. Então temos que introduzir regularmente este pensamento
na tentativa de o afastarmos. Jonathan Haidt (2007) explica ainda que os
processos de pensamento controlados são mais cansativos que os processos de
pensamento automáticos. Quando estamos a aprender um instrumento, na fase
inicial, ficamos muito mais cansados do que quando já temos algum domínio sobre
este, o mesmo se passa quando estamos a aprender a conduzir, por exemplo: esta
monitorização constante que faz parte do próprio processo de aprendizagem acaba
por se tornar cansativa. Mas, acontece que os processos automáticos são
praticamente inesgotáveis então, rapidamente, quando estamos a tentar suprimir
um pensamento estes acabam por tomar conta e é como se desatassem de repente a produzir
milhares de ursos brancos. Segundo este autor e de acordo com os estudos de
Wegner é assim que se geram as obsessões. Os nossos processos automáticos de
pensamento geram milhares de pensamentos todos os dias, Haidt defende que
aqueles pensamentos de que não nos conseguimos livrar são justamente aqueles
que mais tentamos eliminar: quando lutamos com um determinado pensamento, na
verdade, acabamos apenas por torná-lo mais forte e cada vez mais presente na
nossa mente.
Wegner explica que suprimir
pensamentos implica um estado de saber e de não saber ao mesmo tempo,
justamente, porque temos que pensar constantemente naquilo em que estamos a
tentar não pensar.
Esta
é base para todas as perturbações da ansiedade e também para a as ruminações
características da depressão e é este mecanismo que o mindfulness nos pode
ensinar a evitar eliminando todo o sofrimento que lhe está associado. Na
verdade a nossa capacidade de suprimir pensamos pode funcionar em situações sem
tensão com pensamentos que não sejam importantes, por exemplo, se estou
descontraída no cinema a ver um filme e me passa pela cabeça que não sei o que
hei-de fazer para o almoço do dia seguinte, posso facilmente afastar esse
pensamento porque não implica nada de muito importante. Mas se estou presa no
trânsito, atrasada para chegar a casa, onde ainda vou ter que cozinhar um
jantar importante para alguém do trabalho, por exemplo, com quem faço muitas
cerimónias e ainda nem sei bem o que hei-de cozinhar, será bem mais dificil
tentar não pensar no assunto.
E, tal como a dor do nosso corpo quando este se magoa tem um papel importante e precioso que não deve ser ignorado, as dores emocionais também nos trazem informações importantes que não devemos descuidar. A ansiedade tem um valor adaptativo porque nos ajuda a prever o que pode correr mal e nos ajudar a estar mais preparados. A zanga tem também um valor importante porque nos mostra que alguma necessidade nossa não foi satisfeita ou respeitada. A tristeza também é importante porque nos diz que ocorreu uma perda, que estamos vulneráveis. Se não aprendermos a escutar estas mensagens o nosso corpo acabará por ser obrigado a dar-nos outras mais fortes que, muitas vezes surgem na forma de doenças que podem ser mais ou menos graves.
Com
o mindfulness aprendemos a ser mais capazes de respeitar as informações preciosas e importantes que essas dores nos podem trazer. E aprendemos também que não precisamos de entrar em luta com os nossos
pensamentos ou com as nossas emoções, aprendemos que podemos simplesmente
aceitá-los e deixar que estejam presentes sem termos que nos deixar levar pelo
diálogo da nossa mente que nos diz que são pensamentos ou emoçõe perigosas ou
negativas e que não deviam estar presentes. Assim, percebemos que não
precisamos de criar uma nova camada de sofrimento à volta de cada um das nossas
dores e isto deixa-nos muito mais livres para encontrarmos formas mais
criativas de lidar com a dor ou, quando não há mesmo nada a fazer, para
simplesmente deixarmos que passem, no seu tempo, sem nenhum sofrimento extra
adicionado.
O mindfulness, ao ajudar-nos a aceitar as nossas emoções e pensamentos ensina-nos também algo ainda mais importante: aceitarmos-nos a nós mesmos. Com o treino de mindfulness percebemos que não precisamos de passar a vida a lutar com os pensamentos, com as emoções e com quem somos, percebemos que as nossas emoções e os nossos pensamentos estão certos tal como estão. E, com esta base de aceitação que podemos ganhar coragem para mudar realmente aquilo que precisa de ser mudado na nossa vida. É com esta aceitação que percebemos que temos o direito de ser quem somos mas que também temos o direito de mudar e de encontrar formas mais criativas de viver a nossa vida sem termos que nos tornar escravos da ansiedade, dos medos, da tristeza ou das preocupações. O mindfulness dá-nos a liberdade de sabermos que, sejam quais forem as circunstâncias da nossa vida, somos livres para responder mais do que simplesmente reagir ao que acontece.
Laura Sanches
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Fazer Asana escutando o Corpo
O mindfulness é um treino da
atenção que nos ensina a observar sem julgar. Este treino permite-nos por de
parte os comentários, avaliações, julgamentos e análises que a nossa mente faz
constantemente e observar a realidade e a nossa experiência tal como elas são. Isto
permite-nos entrar muito mais em contacto com o nosso corpo e com as nossas
sensações o que, por sua vez, nos permite estar muito mais conscientes das
mensagens que este transmite. Acontece que, no nosso percurso de crescimento
muitas vezes aprendemos a desligar-nos do corpo. Quando educamos as crianças,
muitas vezes, acabamos por lhes transmitir que há determinadas emoções que não
são aceitáveis e isso faz com a que a criança passe a negar determinadas partes
de si. As emoções sentem-se no corpo, por isso, a única forma da criança deixar
de sentir determinadas emoções será passando a ignorar as sensações que estas
despertam no corpo.
Outras vezes também acontece que,
enquanto crianças, passamos por situações que podem ser demasiado difíceis de
assimilar e, por isso, a única forma de lidar com elas será tentando ignorar, de
algum modo, as sensações que estas despertam em nós. Deste modo, com o passar
dos anos, vamos crescendo e aprendendo a desligar-nos um pouco do corpo. A
educação dos nossos dias ajuda ainda mais a efectivar esse desligar na medida
em que todas as capacidades intelectuais são muito mais valorizadas,
estimuladas e reconhecidas do que a capacidade de estar em contacto com as próprias
emoções ou com o próprio corpo.
Com o passar dos anos este
desligar cria uma sensação de insatisfação, uma espécie de vazio que não sabemos
muito bem como preecher. Porque afastamento do corpo, ao afastar-nos das emoções
negativas, também nos impede de saborear verdadeiramente as positivas e então
vamos passando pela vida sem saber muito bem como apreciá-la em pleno. A
incapacidade de nos ligarmos ao corpo e às emoções também nos impede de fazer
verdadeiras escolhas porque para escolher precisamos de escutar as emoções. As escolhas
mais importantes são sempre feitas com base nas emoções. Na verdade há estudos
que mostram que, em todas as nossas escolhas – mesmo aquelas que pensamos serem
mais racionais – são feitas pelas emoções, o racional aparece depois para justificar uma escolha que já foi feita. Estes estudos usam imagens que são
projectadas de uma forma tão rápida que a pessoa não tem tempo de,
conscientemente, as assimilar. O que se verifica é que, mesmo que a pessoa não
chegue a ter tempo de assimilar essas imagens conscientemente, elas continuam a
influenciar as decisões que a pessoa toma a seguir. Jonathan Haidt, psicólogo americano e investigador no campo da psicologia moral, explica que as emoções aparecem sempre primeiro e estão por trás de todas as nossas escolhas o que fazemos é, depois, arranjar argumentos racionais que ajudem a explicar essas escolhas.
Por outro lado, também acontece que, as pessoas que têm mais dificuldade em estar em contacto com as suas emoções acabam por ter também muita dificuldade em fazer escolhas, por vezes, até das coisas mais simples.
Por outro lado, também acontece que, as pessoas que têm mais dificuldade em estar em contacto com as suas emoções acabam por ter também muita dificuldade em fazer escolhas, por vezes, até das coisas mais simples.
Gabor Maté, um médico canadiaano,
no seu livro “When the body says No” desenvolve a tese de que este desligar do
corpo e das emoções, quando é muito acentuado, acaba por fazer com que se
desenvolvam doenças que podem chegar a ser mesmo graves, como o cancro, por
exemplo. O que este autor diz é que o corpo fala constantemente connosco, por
meio das sensações que transmite, e quando não escutamos as suas mensagens ele
precisa de enviar algumas que sejam mais fortes e então surge a doença. Se passámos
muito tempo a ignorar as mensagens do nosso corpo é mais provável que essas
mensagens se tornem mais urgentes daí que as doenças que acabamos por
desenvolver são formas do corpo se fazer escutar e de nos obrigar a parar. Na verdade,
as pessoas que conseguem ultrapassar com mais sucesso essas doenças, são
justamente aquelas que param mesmo para pensar na vida e que ganham coragem
para fazer as mudanças necessárias quando são confrontadas com o seu diagnóstico.
Aquelas que querem continuar como se nada fosse e preferem continuar a pensar
que está tudo bem – e que, muitas vezes são encaradas como as que estão a lidar
melhor com a doença - mostram as estatísticas que são justamente aquelas
que têm mais recaídas e menores probabilidades de sobrevivência. Justamente porque
se recusam a ouvir o corpo e as suas mensagens.
Então, podemos usar a nossa prática
de mindfulness yoga para aprender a ouvir mais o nosso corpo, para estarmos
mais receptivos e em sintonia com as mensagens que ele nos transmite. Uma das
ferramentas que podemos usar para o fazer é a nossa prática de asana. Quando fazemos
asana (as posturas do yoga), especialmente aqueles que são mais difíceis para nós,
o corpo dá-nos uma série de mensagens: podemos sentir os músculos a alongar ou
a serem fortalecidos, podemos tomar consciência dos músculos que não estão a
ser usados e que podem permanecer totalmente relaxados, podemos aperceber-nos
das tensões desnecessárias que estamos a criar, etc. Mas acontece que, no meio
destas mensagens do corpo, surgem também os pensamentos, as avaliações e os
julgamentos: a nossa mente começa a tecer vários comentários e julgamentos
sobre aquelas sensações dizendo-nos que não somos capazes de as aguentar, ou
que algo de mau vai acontecer se insistirmos, ou que não temos força suficiente,
ou que não somos flexíveis, ou que aquilo é muito difícil para nós,etc. E, a
maioria das vezes, são estas mensagens que nos levam a desfazer um asana, mais
do que uma verdadeira necessidade do nosso corpo. Então, é um exercício
importante de auto-conhecimento aprendermos a ser capazes de distinguir as
mensagens da nossa cabeça, os comentários constantes, das verdadeiras mensagens
do nosso corpo. Quando fazemos um asana podemos ter a intenção de escutar
verdadeiramente o corpo e só sair desse asana quando for o corpo a dizer-nos
que já obteve tudo o que precisa de obter daquele exercício.
Se conseguirmos fazê-lo, o que
nem sempre é fácil, damos mais um passo para criar uma verdadeira intimidade e
aceitação com o corpo e connosco mesmos.
Outras vezes também pode
acontecer o contrário: o corpo está cansado da posição, mas a cabeça diz que é
preciso aguentar porque temos que nos esforçar, porque queremos melhorar ou
porque ainda ninguém desfez, ou porque achamos que precisamos de ir mais longe
na posição e, quando isto acontece, é muito fácil magoarmos-nos. Principalmente
se o fazemos repetidamente, aí podemos mesmo criar lesões crónicas ou até com
alguma gravidade. Nestes casos o exercício de ouvir o nosso corpo e reconhecer
as suas mensagens é também um exercício de aceitação: aceitação dos nossos
limites e aceitação da realidade, do nosso corpo, tal como ele é e não como
gostaríamos que fosse. Esta também é uma aprendizagem essencial porque muitas
vezes passamos uma boa parte da vida a lutar connosco mesmos, a achar que
precisamos de ser diferentes e, só quando largarmos essa luta é que teremos
verdadeiramente espaço para crescer, para sermos felizes e para levarmos uma
vida mais saudável e equilibrada em todos os sentidos.
Laura Sanches
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