Hoje em dia já
existem centenas de estudos que comprovam os efeitos benéficos da meditação.
Uma vasta parte desses estudos que, hoje em dia, são produzidos são
influenciados pelo trabalho pioneiro de Kabat-Zinn, um médico dos E.U.A que
trouxe o mindfulnes, da tradição Budista, para um contexto mais terapêutico,
científico e despido de conotações religiosas. O Mindfulness pode ser definido
como um estado em que se presta atenção, de forma intencional, ao momento
presente, sem julgamentos. Este é um estado de atenção que pode ser aplicado a
qualquer situação da nossa vida diária mas que é mais facilmente aprendido e
treinado num contexto de meditação formal.
Várias
correntes da psicologia – como a Psicologia Positiva ou a Psicologia Cognitiva
– já se interessaram pela utilidade do mindfulness como forma de promover a
saúde mental e surgiram já vários programas, com base nesta prática, que se
destinam a combater perturbações específicas específicas como a depressão
(Mindfulness-Based Cognitive Therapy), perturbações borderline da personalidade
(dialectical Behaviour Therapy), e a Terapia de Aceitação e compromisso que tem
tido resultados muito positivos principalmente a lidar com perturbações da
ansiedade e com dependências.
Para melhor
compreender este estado, primeiro é importante salientar que, dentro todas as
centenas de técnicas de meditação diferentes que se podem encontrar nas várias
tradições espalhadas pelo mundo se podem enquadrar dentro de dois grandes
grupos:
Técnicas de concentração
– são todas as que envolvem a concentração num ponto, tentando afastar todos os
outros objectos da consciência. Estas conduzem a um estreitamento da consciência
que se foca exclusivamente num único objecto. A concentração e a capacidade de
focar a mente que se obtêm com este tipo de prática são essenciais para
qualquer prática de meditação e são as responsáveis pelos sentimentos de
bem-estar e de tranquilidade que, geralmente, surgem com uma prática regular e
continuada.
Técnicas de Insight – implicam uma atenção constante, mas sem
julgamentos, a todos os conteúdos que vão surgindo na consciência. O objectivo
é ter uma percepção ampla de todos os conteúdos da consciência, sem que haja
nenhum envolvimento com estes. Estas tipo de técnicas conduzem a uma expansão
da consciência, que se torna capaz de abarcar um número cada vez maior de
objectos em simultâneo. Esta técnica é
importante para o auto-conhecimento: permite-nos ter uma maior noção do
conteúdo das nossas mentes e também de como nos relacionamos com este.
Na prática da
meditação do tipo mindfulness estamos a treinar estes dois tipos ou estratégias
de atenção. Esta é uma prática em que oscilamos entre a concentração e o foco
na respiração, que nos traz a sensação de bem-estar e de tranquilidade e o
deixar a consciência passar pelos vários conteúdos que vão surgindo e que se
vão modificando momento a momento. Kabat-Zinn descreve esta prática como “uma
dança entre uma atenção unifocada da concentração e a consciência mais ampla do
insight.
O trabalho de concentração que se faz focando a atenção
na respiração é essencial e é a base que permite que a mente se mantenha focada
mesmo durante os períodos de insight em que há a tal expansão da consciência.
Este treino da concentração é também essencial para nos trazer a sensação de
bem-estar e de tranquilidade que a meditação pode proporcionar. Na nossa
sociedade não somos ensinados a concentrar a mente desta forma. Quando vemos
televisão, por exemplo, a nossa mente fica num estado passivo, em que se limita
a ser dirigida pelos estímulos externos. O mesmo acontece – embora talvez de
uma forma um pouco menos acentuada – com os jogos e com a internet. Durante
esses períodos (e por isso é que tantas pessoas os usam como forma de se
distrairem ou de fugirem temporariamente aos seus próprios pensamentos ou
emoções) a nossa mente entra numa espécie de piloto automático em que se limita
a ser guiada e levada pelas imagens e sons que vão aparecendo à nossa frente.
Então, se no nosso dia-a-dia
passamos demasiado tempo a abdicar do controlo da nossa mente, a cedê-lo a
qualquer outro aparelho externo é natural que, quando precisamos de nos
concentrar para estudar ou trabalhar, por exemplo, a nossa mente já não esteja
a habituada a ser dirigida desta forma. Ainda para mais se a tarefa for, à
partida, desiteressante para nós, torna-se muito difíicil deixar que a mente
lhe preste atenção.
Por outro lado, os ritmos acelerados em que vivemos e os
estados de tensão e ansiedade também não ajudam a combater a dispersão mental.
Quando estamos constantemente a tentar antecipar o futuro ou presos a alguma
coisa que se passou no passado torna-se muito difícil manter a atenção no
presente.
Então este treino da atenção dá-nos
a capacidade de manter a nossa mente onde precisa de ser mantida. Dá-nos a
capacidade de focar a nossa atenção naquilo que precisa de ser feito em cada
instante da nossa vida.
Viver num estado de dispersão
constante em que nos sentimos constantemente puxados por vários estímulos ou
pelos nossos próprios pensamentos pode ser muito desgastante e leva-nos a um
sentimento de exaustão. Este treino da atenção também nos permite repousar
verdadeiramente a nossa mente. A concentração permite-nos abrandar um pouco a
velocidade dos pensamentos e isto dá-nos a possibilidade de descansar de
repousar. Para além disto, sermos capazes de nos concentrar também significa
que passamos a ser capazes de apreciar verdadeiramente as coisas boas da vida.
Quantas vezes estamos de férias preocupados com o trabalho? Ou quantas vezes
estamos a saborear um bom almoço preocupados com a loiça que teremos que
arrumar a seguir e com o supermercado a que ainda não fomos? Quantas vezes
estamos na praia a ver um belo por do sol e não conseguimos apreciá-lo em toda
a sua beleza porque não paramos de nos preocupar com aquilo que dissemos numa
discussão feia que tivemos no dia anterior? Quantas vezes não somos capazes de
saborear os momentos simples da vida porque estamos tão preenchidos com
pensamentos acerca do futuro ou do passado que se torna impossível focar a nossa
atenção no presente. O treino da concentração traz-nos esta capacidade de viver
mais plenamente cada instante da nossa vida.
É importante frisarmos que para meditar não precisamos de
parar os nossos pensamentos. Muitas vezes existe esta noção que acaba por criar
apenas uma luta interior que só provoca tensão e desconforto. Por vezes os
estados de concentração podem trazer-nos um certo abrandar do ritmo dos
pensamentos mas, o mais importante é que através da meditação - aqui é o onde o
insight se torna um aspecto essencial da prática – podemos aprender a
relacionar-nos de forma diferente com os nossos pensamentos. Não precisamos de
desejar que estes parem ou desapareçam porque percebemos que podemos apenas
mudar a nossa relação com estes.
Então, se a concentração é um aspecto essencial da
meditação podemos dizer que o insigth é também fundamental para o crescimento
psicológico que a meditação nos pode trazer. É através da expansão da
consciência que o insight proporciona que podemos tornar-mos mais conhecedores
do conteúdo das nossas mentes. E, conhecendo essse conteúdo, o mindfulness,
permite-nos também passar a relacionarmo-nos com ele de outra forma. Com a
expansão da consciência que o insight provoca torna-se muito mais nítidos os
nossos pensamentos, as nossas emoções, podemos ver mais claramente todo o
conteúdo da nossa mente e começar a perceber que existem determinados padrões,
padrões de pensamento, de sentimento. Começamos a perceber que poderá haver uma
tendência para determinados pensamentos estarem presentes e que esses
pensamentos, por sua vez, estão relacionados com determinados sentimentos. E,
com este conhecimento vem também a liberdade: a liberdade de percebermos que
não somos obrigados a ficar presos nem a esses pensamentos nem a essa ligação
entre eles e determinadas emoções. Começamos a perceber, primeiro, que os
nossos pensamentos e emoções mudam a cada instante a cada momento e, depois,
percebems também que há algo mais para além deles. Que não somos só os nossos
pensamentos as nossas emoções, os nossos sentimentos. E essa visão de que há
algo mais para além de todo este nosso conteúdo mental pode ser muito
libertadora. Começamos a perceber que temos escolha na forma como nos sentimos,
na forma como reagimos a todas as situações da nossa vida.
O mindfulness também nos torna mais conscientes do corpo.
O facto de aprendermos a observar a nossa respiração e o corpo momento a momento,
aceitando e acolhendo as sensações que vão surgindo tal como são, torna-nos
mais capazes de viver com o nosso corpo no dia-a-dia e com as sensações e
emoções que este nos traz. Isto pode ter também um efeito muito libertador
porque nos permite perceber que não precisamos de viver apenas de um modo
racional. Quando estamos muito habituados a refugiar-nos nos nossos pensamentos
para lidar com tudo o que vai acontecendo podemos ficar facilmente exaustos com
os nossos próprios diálogos internos cada vez que estamos perante um desafio
importante. Porque o grau que temos sobre os nossos pensamentos é muito mais
pequeno do que aquilo que gostamos de pensar o que acontece é que, muitas
vezes, pode-se tornar bastante desgastante tentarmos controlar as nossas emoções
através destes. E quanto mais importantes forem esses desafios, mais difícil
ainda se torna manter o controlo dos nossos estados internos. Então entramos
num ciclo de luta connosco próprios que só leva a mais cansaço e a uma sensação
de desespero que não seremos capazes de controlar. A única forma de quebrar
este ciclo é aprendermos a observar e a aceitar todos os aspectos da nossa
experiência sem nos deixarmos levar pela sensação de descontrolo perante as
emoções mais difíceis, usando a respiração e a consciência do corpo como as
nossas âncoras, o nosso porto seguro no meio das tempestades.
O facto de nos tornarmos mais conscientes e com uma maior
aceitação do corpo e das suas mensagens, pode também contribuir de uma forma
muito positiva para a melhoria da nossa saúde visto que estaremos mais aptos a
ler as suas mensagens que nos permitem aprender a cuidar melhor de nós.
Efeitos fisiológicos do Mindfulness – Como a Atenção
Plena pode mudar o nosso corpo
Existem vários trabalhos de investigação que mostram que
a prática da meditação do tipo mindfulness pode mesmo provocar algumas
alterações no funcionamento do nosso organismo.
Um estudo de Davidson (2003, cit por Kelly, 2008)
mostrou que a meditação mindfulness produzia alterações significativas no cérebro
e no sistema imunitário e um estudo de Newberg et e all (2001, cit por Kelly
2008) descobriu que esta prática aumentava o fluxo sanguíneo no tálamo, no gyro
cingular, no cortex inferior e no frontal orbital e no cortex prefrontal em
praticantes de meditação Budista. O aumento do fluxo sanguíneo poderá estar
relacionado com uma maior utlização dessas zonas.
Ryback (2006) explica que a meditação mindfulness pode
proporcionar um maior equilíbrio entre a parte cortéx frontal dos dois
hemisférios. E, segundo este investigador, com essa melhoria, pode passar a
haver um acesso mais directo à intuição já que se torna mais fácil estabelecer
as ligações que existem entre o cortéx pré-frontal, a amigdala e a relação
cérebro-gastrointestinal que está associada aos instintos. Há estudos que
indicam que existem fibras que ligam as partes do cérebro associadas ao
pensamento com o tracto digestivo e acredita-se que isto contribui para o o
instinto em algumas situações, na língua inglesa existe até a expressão gut feeling que ilustra esta relação
entre o cérebro e o intestino.
O trabalho da neurocientista Dr. Candace Pert sobre os
neuropéptidos ilustra bem esta relação que existe entre o cérebro e outros
sistemas no nosso corpo. Os neuropéptidos são neurotransmissores, ou seja,
moléculas que o corpo usa para transmitir informações entre os vários sistemas
do organismo. Esta cientista chamou a essas substâncias as moléculas das
emoções porque cada vez que temos uma determinada emoção, pensamento ou
sentimento, são libertados vários neuropéptidos que provocam toda uma série de
alterações fisiológicas que correspondem a esse pensamento ou emoção. Esta
cientista descobriu que no nosso sistema digestivo, nomeadamente nos intestinos
e no sistema imunitário havia uma grande concentração de neuropéptidos, bem
como no sistema límbico, uma zona do cérebro que a neurociência tem vindo já há
algum tempo a associar às emoções. A novidade no trabalho desta investigadora
está no facto deste ter encontrado provas convicentes de que realmente o nosso
sistema imunitário e nosso sistema digestivo têm uma espécie de via rápida do
ponto de vista fisiológico ou bioquímico para comunicar com o nosso cérebro
através do sistema limbíco, reagindo assim prontamente às nossas emoções,
pensamentos e sentimentos.

Gabor Mate, no seu livro escreve que :“O sistema
hormonal do corpo está inextrincavelmente ligado aos centros cerebrais, onde as
emoções são experienciadas e interpretadas. Por seu turno, o aparelho hormonal
e os centros emocionais estão interligados com o sistema imunitário e o sistema
nervoso. Estes não são quatro sistemas separados, mas um supersistema que
funciona como uma unidade para proteger o corpo de invasões externas e de
perturbações à sua condição fisiológica interna. É impossível para qualquer
estímulo stressante, crónico ou agudo, agir apenas numa parte do sistema. O que
acontece com um, afecta todos.” (2003, Pg 61) Esta interligação que existe
nestes sistemas do nosso organismo, mostra que, se formos capazes de eliminar a
resposta de stress, através da meditação, por exemplo, então todo o nosso
organismo funcionará melhor e de forma mais eficiente, visto que tudo está
interligado.
Ao nível do sistema imunitário podemos citar um
estudo de Ott, Norris, Bauer-Wu (2006) efectuado com doentes de cancro que
mostrou que a prática desta meditação poderia ser uma forma de melhorar o
funcionamento do seu sistema imunitário bem como as perturbações de humor que
geralmente acompanham estes doentes e a sua qualidade de vida. Esta prática
contribuia também para diminuir os sintomas de stress, verificando-se uma
diminuição dos níveis de cortisol durante o dia. Neste estudo verificou-se
também que o factor que mais
influenciava a capacidade do mindfulness contribuir para estas melhorias
era o número de sessões de meditação a que os doentes tinham assistido.
Um investigador que teve um papel importante na
compreensão acerca da forma como a meditação nos pode trazer benefícios foi
Herbert Benson que escreveu, nos anos 70, um livro que já se tornou um clássico
e que continua bastante actual: A
Resposta de Relaxamento. Na altura em que este médico se começou a
interessar pela meditação e pelos seus efeitos a prática mais estudada e uma
das mais populares no ocidente era a meditação transcendental, uma prática
tornada popular pelo Maharishi Mahesh Yogi que a ensinou aos Beatles que
contribuiram muito para a sua divulgação. Benson era um médico que procurou
compreender os efeitos da meditação e com base nos seus estudos concluiu que a
meditação despoleta um mecanismo a que chamou a Resposta de Relaxamento. Para
Benson (2001) este é um mecanismo inato, ou seja, todos temos capacidade de o
acionar (mesmo que precisemos de aprender a fazê-lo), que nos protege contra os
efeitos do stress excessivo e que poderia ser considerado o oposto da Resposta
de Luta ou Fuga. Segundo Benson (2001), este mecanismo diminui o metabolismo, o
ritmo cardíaco, e traz de volta o equilíbrio natural do corpo, reduzindo a
actividade do sistema nervoso simpático. Este médico teve o mérito de ser um
dos primeiros a reconhecer a importância da ligação mente-corpo no campo da
medicina e, com base em algumas investigações que fez concluiu ainda que a
meditação poderia ser uma forma eficaz de tratar alguns casos de hipertensão
arterial visto que, de acordo com as suas observações, a resposta de relaxamento afecta os mesmos mecanismos e diminui a
pressão arterial pelos mesmos meios que algumas drogas anti-hipertensivas
(Benson, 2001).
Para este
autor, para despertar esta resposta de relaxamento, era necessária a repetição
de algum tipo de objecto mental – algo em que a pessoa pudesse focar a sua
atenção como um som, uma frase, uma imagem, etc – e uma atitude passiva, ou
seja, sem preocupações acerca de quão bem se está a usar a técnica, pondo de
lado os pensamentos distratores e voltando sempre ao foco de atenção. Esta
descrição revela-nos um processo muito semelhante ao que é sugerido na
meditação mindfulness em que os aspectos fundamentais são mesmo a ausência de
julgamentos e a capacidade de redireccionar a atenção uma e outra vez para a
respiração ou outro estímulo em que queiramos concentrar-nos.
Benson, que se
dedicou a estudar este fenómeno da resposta de relaxamento, liderou e
participou em algumas investigações que demonstraram que esta era eficaz a
tratar a hipertensão, as dores de cabeça, as irregularidades no ritmo cardíaco,
o síndroma pré-menstrual, a ansiedade e a depressão ligeira a moderada (cit por
Benson, 2001).
Benson
procurou que os seus estudos ajudassem a perceber melhor porque mecanismos é
que a meditação nos traz estes benefícios e assim descobriu que durante a
meditação há uma redução marcada do consumo de oxigénio. Segundo as suas
observações, Benson explica que, de um ponto de vista fisiológico, a maior
alteração associada à meditação é uma diminuição do metabolismo a que se chama
hipometabolismo e a que está associado um estado de descanso, em que é reduzido
o consumo de energia, tal como acontece no sono. No entanto na meditação esta
diminuição do consumo de oxigènio acontece de forma diferente: durante o sono
este consumo diminui lentamente, até que, ao final de quatro ou cinco horas é
cerca de 8% mais baixo do que quando estamos acordados. Mas, durante a
meditação, a diminuição é, em média, de 10 a 20% e acontece logo nos primeiros três
minutos de prática (Benson, 2001). O autor afirma que não é possível conseguir
uma diminuição desta intensidade de mais nenhuma forma. Na verdade há muito
poucas condições que produzam uma diminuição do consumo de oxigénio. O sono, como
vimos, é uma delas e a hibernação outra. Mas, na hibernação diminui a
temperatura rectal, o que não acontece na meditação. Além disso, na meditação
também aumentam as ondas alfa que costumam aparecer apenas quando o sono é
muito profundo. Por outro lado, Benson (2001) encontrou também na meditação uma
diminuição marcada do lactato sanguíneo, uma substância associada a níveis
elevados de ansiedade. Com este hipometabolismo o ritmo cardíaco diminui umas
três batidas por minuto e a respiração também se torna mais lenta.
Benson
verificou ainda que os praticantes de meditação transcental tinham tendência
para diminuir o seu consumo de todo o tipo de drogas. Na verdade, hoje em dia,
já há algumas psicoterapias em que as técnicas de mindfulness são usadas
justamente para combater dependências químicas. Estes efeitos da meditação
podem acontecer por duas vias: por um lado a meditação ajuda-nos a estar mais
conscientes dos nossos estados internos, do nosso corpo e das nossas emoções;
isto amplia também a nossa consciência dos efeitos de todas as substâncias
nocivas no nosso corpo, levando-nos a estar mais conscientes dos seus prejuízos
para a nossa saúde e, consequentemente, dá-nos mais vontade de eliminar todos
os comportamentos que lhes estão associados. Por outro lado, a meditação também
nos pode ajudar a lidar melhor com a ansiedade e outras emoções difíceis que a
abstinência provoca, dando-nos uma ferramenta que nos faz sentir muito mais
capazes de lidar com essas sensações desagradáveis e de encontrar estratégias
mais saudáveis para lidar com as emoções. Para além disto as sensações
agradáveis que encontramos na prática da meditação podem também ser uma forma
mais saudável de encontrarmos algumas sensações de preenchimento e bem-estar
que algumas substâncias psico-activas podem também provocar. Esta foi umas das
conclusões de um estudo feito por Leo Matos (1987)
que entrevistou um grupo de toxicodependentes em recuperação que usavam a
meditação como forma de lidar com a sua abstinência.
Ao nível cerebral, para além
da alteração do tipo de ondas produzidas que é possível verificar através dos
Electroencefalogramas –sabendo-se que, durante a meditação, se produzem
sobretudo ondas do tipo alfa – também já foi verificado que a meditação pode
provocar uma maior sincronização ou
coerência entre diferentes áreas corticais, o que significa que há mais áreas
do cérebro activas ao mesmo tempo. O cortex certebral é a parte do cérebro que
está mais ligada aos processos criativos e ao pensamento complexo. Alguns
investigadores sugerem que isto produz uma base para uma maior criatividade e
crescimento psicológico. Mas a verdade é que esta coerência também pode ocorrer
na esquizofrenia e a na epilepsia, pelo que não há certezas acerca do seu
significado.
Chris Mace (2008) descreve um estudo um pouco diferente
daqueles que habitualmente se fazem. Neste estudo, em vez de se analisarem do
ponto de vista funcional os eitos da meditação, os investigadores obervaram que
a meditação produzia alguns efeitos na própria anatomia do cérebro. Para
chegarem a esta conclusão, os investigadores (Lazar, et e all), observaram o
cérebro de vinte praticantes de meditação com um mínimo de 2 anos e uma média
de 9 anos de prática, comparando os seus córtexes cerebrais com o cortéx de 15
não praticantes. Aquilo que se verificou foi que o cortex dos praticantes de
meditação era significativamente mais espesso em muitas áreas, nos dois
hemisférios, embora não fosse mais espesso que os do grupo de controlo, no
geral. Isto quer dizer que havia diferenças claras entre os dois grupos mas
estas localizavam-se apenas em ambos os lados do córtex pré-frontal e à volta
da insula direita (uma estrutura cerebral que se acredita ter alguma relação
com a forma como se gera a consciência e com as emoções). Quanto mais velho era
o sujeito maior era esta diferença, sugerindo que a meditação poderia estar a
prevenir um processo que ocorreria naturalmente com a idade, em que esta zona
do cérebro se tornaria progressivamente mais fina. Este estudo tem sido tomado
como evidência de que o tipo de atenção que se desenvolve na meditação provoca
um crescimento neuronal em áreas do cérebro que é provável que sejam activadas
durante a meditação.
Dan Siegel, psiquiatra do Mindsight institute, nos E.U.A.
nas suas pesquisas acerca dos efeitos do mindfulness observou que esta prática
activa no cérebro as mesmas zonas que costumam activar-se quando as crianças se
sentem vistas e incondicionalmente amadas pelos seus pais. No seu percurso de
desenvolvimento a criança forma com a mãe (ou com a pessoa que mais tempo cuida
dela) aquilo a que Jonh Bolwby chamou apego. Esta expressão traduz uma
vinculação muito forte que a criança começa por formar, geralmente, primeiro
com a mãe e depois também com o pai. A criança quando nasce vem programada para
receber e também para dar amor incondicional aos seus pais mas, acontece que,
por muito amor que estes tenham nem sempre é fácil demonstrá-lo. Criar esta
vinculação com a criança, por um lado, exige tempo que nem sempre as mães ou
pais têm, por outro exige uma disponibilidade emocional que também nem sempre é
fácil de conseguir. Então, o que acontece é que, por um motivo ou outro, a
criança começa a perceber que os pais não estão sempre disponíveis e que, mesmo
quando estão disponíveis fisicamente nem sempre o estão de um ponto de vista
emocional. O ser humano nasce num estado de dependência total e, talvez por
isso mesmo, vem programado para criar laços e ligações profundas e, se a mãe ou
o pai estiverem disponíveis para cuidar da criança e para lhe dar esse amor
incondicional de que precisa então a criança forma uma vinculação segura com os
pais mas, acontece que, nem sempre é fácil para os pais trasmitirem esse amor
incondicional à criança. Quando isto acontece, quando a criança não consegue
desenvolver um apego seguro com os seus pais, então acabam por ficar algumas
lacunas, feridas ou inseguranças no seu desenvolvimento. (ler artigo sobre Apego)
Aquilo que Dan
Siegel verificou foi que o mindfulness tinha a capacidade de ajudar a curar essas feridas ao contribuir
para activar um padrão cerebral idêntico ao que é ativado nos cérebros de
pessoas que estabeleceram um processo de vinculação seguro. Isto acontece
porque ao cultivarmos um estado de mindfulness estamos justamente a dar a nós
mesmos aquilo que todas as crianças querem dos seus pais: atenção plena e
incondicional. Quando praticamos a atenção plena, ou o mindfulness, estamos a
desenvolver uma atitude de abertura e de aceitação à nossa experiência, aos
nossos sentimentos aos nossos pensamentos. Através do mindfulness passamos a
ser mais capazes de aceitar os pensamentos, as sensações. Quando nos treinamos
para observar sem julgamentos percebemos que passamos muito tempo a lutar com
os nossos pensamentos, passamos muito tempo a tentar evitar determinadas
emoções, determinadas sensações. Por condicionamentos da nossa infância muitos
de nós crescem a acreditar que determinadas emoções ou pensamentos não devem
existir e a luta para os erradicar acaba por originar apenas sofrimento e
cansaço. Então com a prática do mindfulness aprendemos a largar essas lutas e,
por sua vez, isso acaba mesmo por fazer com que o sofrimento
desapareça.
Siegel (2005, cit por Ryback, 2006) diz que a “prática de
mindfulness, as ligações profundas e afectuosas e uma terapia eficiente fazem
todas a mesma coisa: modificam o cérebro construindo fibras integrativas mais
fortes, resultando em estados emocionais mais equilibrados….Com o
fortalecimento dessas fibras integrativas há mais equílibrio entre os
hemisférios corticais direito e esquerdo (posto de forma simples, emocional e
lógico respectivamente), logo passa a haver mais equilíbrio emocional, mais
flexibilidade de resposta e maior capacidade para a empatia e auto-consciência.”
Hoje em dia sabemos que o
nosso cérebro tem uma grande capacidade de se modificar de acordo com as nossas
experiências e que essa capacidade, apesar de estar mais presente na infância,
se pode manter ao longo de todas as nossas vidas. Chama-se a esta capacidade
neuroplasticidade e é graças a ela que a prática do Mindfulness nos pode ajudar
a transformar a nossa experiência e a nossa vida.
Laura Sanches